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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e íngreme que subia da taberna, a um canto da comprida mesa alumiada por dois candeeiros de petróleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até os Bravais e pelas emoções do voltarete em que ganhara dezenove tostões ao Manuel Duarte - começou por uma pratada de ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu "frango de doente", clareou o prato da salada de pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmelada; e através deste nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pele se afogueasse, esvaziou uma caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó, amaldiçoara o vinho novo do abade. À sobremesa apareceu o Videirinha, "o Videirinha do violão", tocador afamado de Vila-Clara, ajudante de Farmácia, e poeta com versos de amor e de patriotismo já impressos no Independente de Oliveira. Jantara nessa tarde, com o violão, em casa do Comendador Barros, que celebrava o aniversário da sua comenda: e só aceitou um copo de Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de marmelada "para adocicar a goela". Depois, à meia-noite, Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um café "muito forte, um café terrível, Gago amigo! um café capaz de abrir talento no Sr. Comendador Barros!" Era essa a hora divina do violão e do "fadinho". E já o Videirinha recuara para a sombra da sala, pigarreando, afinando os bordões, pousado com melancolia à borda dum banco alto.

- A Soledad, Videirinha! - pediu o bom Titó, pensativo, enrolando um grosso cigarro.

Videirinha gemeu deliciosamente a Soledad:

Quando fores ao cemitério Ai Soledad, Soledad!...

Depois, apenas ele findou, aclamado, e enquanto acertava as cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovelos na mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos Ingleses, preparada sorrateirarnente (conforme clamavam, arrepiados de horror, os jornais da Oposição) pelo Governo do S. Fulgêncio. E Gonçalo também se arrepiava! Não com a alienação da Colônia - mas com a imprudência do S. Fulgêncio! Que aquele careca obeso, filho sacrílego dum frade que depois se fizera merceeiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se manter mais dois anos no poder, um pedaço de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Ataídes, os Castros, os seus próprios avós era para ele uma abominação que justificava todas as violências, mesmo urna revolta, e a casa de Bragança enterrada no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amêndoas torradas, João Gouveia observou:

- Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os Regeneradores..

O Fidalgo sorriu superiormente. Ah! se os Regeneradores realizassem essa grandiosa operação -bem! Esses, primeiramente, nunca cometeriam a indecência de vender a Ingleses terra de Portugueses! Negociariam com Franceses, com Italianos, povos latinos, raças fraternas... E depois os bons milhões soantes seriam aplicados ao fomento do País, com saber, com probidade, com experiência. Mas esse horrendo careca do S. Fulgêncio!... - E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, porque realmente aquele cognac do Gago era urna peçonha torpe!

O Titó encolheu os ombros, resignado:

- Não me deixaste ir buscar a aguardentezinha, agora agüenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta. Nem para os negros desse Lourenço Marques que tu queres vender... Portugueses indecentes, a vender Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia proibir estas conversas...

Mas o Sr. Administrador do Concelho afirmou que as consentia, e rasgadamente... Porque também ele, como Governo, venderia Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa oriental! E às talhadas! Em leilão! Ali, toda a África, posta em praça, apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos por quê? Pelo são princípio de forte administração (estendia o braço, meio alçado do banco, como num Parlamento)... Pelo são princípio de que todo o proprietário de terras distantes, que não pode valorizar por falta de dinheiro ou gente, as deve vender para consertar o seu telhado, estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom torrão que pisa com os pés... Ora a Portugal restava toda uma riquíssima província a amanhar, a regar, a lavrar, a semear - o Alentejo!

O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alentejo como uma película de terra de má qualidade, que, fora umas léguas de campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas esgaravatada, logo mostrava o granito...

- O mano João tem lá uma herdade imensa, imensíssima, que rende trezentos mil réis!

O Administrador, que advogara em Mértola, protestou, encristado. O Alentejo! Província abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde séculos, pela imbecilidade dos governos... Mas riquíssima, fertilíssima!

- Pois então os Árabes... E qual Árabes! Ainda há dias o Freitas Galvão me contava...

Mas Gonçalo Mendes, que cuspira também a genebra com uma carantonha, acudiu. num resumo varredor, condenando todo o Alentejo como uma desgraçada ilusão!

Estirado por sobre a mesa. o Administrador gritava:

- Você já esteve no Alentejo?

- Também nunca estive na China, e...

- Então não fale! Só a vinha espantosa que plantou o João Maria...

- Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, noutros sítios, léguas e léguas sem...

- Um celeiro!

- Uma charneca!

E através do tumulto o Videirinha, repenicando com solitário ardor, levado na torrente de ais do "fado" da Anosa, soluçava contra uns olhos negros, donos do seu coração:

Ai! que dos teus negros olhos Me vem hoje a perdição...

(continua...)

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