Por Camilo Castelo Branco (1862)
A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato; fumei alguns dias, sem mais resultado que uma ameaça de tubérculos, uma formal estupidez de espírito e não sei que profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio mês estava dando em espetáculo. A cara mantinhase na prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roxa com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz “olheiras”. Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis, que desce da pálpebra inferior até às proeminências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroxada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido que até o próprio médico chegou a persuadir-me, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico. Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony e o trágico de Fausto. Seria, no entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do cabelo, no ponto em que eu barbeava a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema azulado. Era a natureza a vingar-se. Cada vez que me eu via com aquele disco na testa, experimentava a dor do poeta de Dom João contemplando o seu pé coxo, por causa do qual, e com o qual, tanto pontapé deu o raivoso lorde no gênero humano.
Assim amanhado de aspecto, saia de casa, à hora em que o Sol dardejava a prumo, ou quando as nuvens se rompiam em torrentes. O meu cavalo era negro, negro o meu trajar, tudo em mim e de mim refletia a negridão da alma. Cheguei a enganar-me comigo mesmo, e a remirar-me a mim próprio, com certo compadecimento e simpatia! Os grupos dos meus conhecidos viam-me passar abstraído e diziam: “Foi uma mulher que o reduziu àquilo!” Eu sabia que era corrente nos círculos da juventude a seguinte história a meu respeito: “Que eu tinha amado uma neta de reis, filha dum titular, cujos avós já tinham os retratos de vinte gerações, antes de se inventar a pintura. Que a menina, fascinada pela minha mesma temeridade, descera, na hora da sesta, ao jardim, e me lançara uma flor, chamada ai!, na copa do chapéu. Que o jardineiro observava o ato e o delatara ao fidalgo. Que o fidalgo chamara a filha e, ouvida a resposta balbuciante dela, a fizera entrar no Mosteiro das Comendadeiras da Encarnação, onde se finava lentamente, e eu cá de fora lhe andava, a horas mortas, falando, mediante as estrelas do céu e os murmúrios misteriosos da noite, resolvido a morrer, logo que o anjo batesse as suas asas imortais no caminho da glória eterna. Amém.”
Era isso o que se dizia; mas a verdade é outra.
II
É certo que eu, num dos meus passeios desabridos, quando o céu afuzilava relâmpagos, fui a caminho de Sintra, e vi na balaustrada de uma varanda, com os olhos postos no ocidente tempestuoso, uma mulher, que se me afigurou a pomba da boa nova ao quadragésimo dia do dilúvio. Retive as rédeas do cavalo, sofreei a respiração, contemplei-a com petulante ternura, e ela foi-se embora.
Tornei no dia seguinte a Benfica, e vi a menina sentada na varanda a ler, com um papagaio pousado na espádua esquerda.
O papagaio tomou medo aos galões do meu cavalo, saltou-lhe do ombro para o regaço, sacudindo-lhe da mão o livro, o qual caiu à estrada por entre os balaústres. Descavalguei dum salto apanhei o livro e esperei que um criado o viesse receber. Entretanto, abri-o, busquei o título na primeira página, e achei que era O Homem dos Três Calções. Inferi logo que a dama era uma altíssima cismadora de coisas etéreas.
Dei o livro ao criado de libré cor de canela, o qual, examinando o jarrete direito do meu cavalo, achou que ele tinha duas sobrecanas. Perguntei-lhe eu como se chamava a dona do livro, e ele respondeu que a fidalga se chamava Paula, que era morgada, que estava para se casar, e dos costumes não disse nada.
Cavalguei, retrocedi depois dum curto passeio, e, ao passar-lhe à porta, vi Paula dando ginjas ao papagaio. Viu-me, e fez-se da cor nacarina das ginjas.
Eu carecia duma paixão que me sacudisse pelos cabelos, uma paixão que me levasse de inferno em inferno, que me impinasse ao apogeu da glória, ou me despenhasse na voragem da morte. Precisava disto, porque não tinha que fazer, e gozava robusta saúde, e alargava a testa há cinco meses, não sei para que destinos!
Amar uma menina herdeira; contratada para casar; galante; lida nos bons catecismos espirituais; criada com passarinhos e flores; rodeada dos mágicos rumores das florestas: tudo isto me pareceu talhado à minha ansiedade de lutar, de sofrer, de viver com glória, ou morrer com honra. Quando cismava nisto, e me assaltava ao mesmo tempo a cobiça de entrar num restaurante à la carte, e pedir um pastel de pombos, corria-me de vergonha da minha viloa natureza!
Encontrei, uma vez, o criado de D. Paula a passear os cavalos no Campo Pequeno. Dialogámos acerca de raças cavalares, e dos lamparões dos mesmos, que ele sabia curar com proficiência. Encaminhei a conversação até falarmos da fidalga, e obtive os seguintes esclarecimentos: perguntou-lhe a menina se eu dissera alguma coisa, quando entreguei o livro, e mostrara-se admiradíssima de eu querer saber o nome dela. Desejara muito saber se eu lera o título do livro: informação que o criado não soubera dar. Perguntara-lhe se me via algumas vezes na estrada, e ficara muito pensativa quando soube que eu ali parava, olhando para as janelas, quando o criado, à meia-noite, se erguia para aquietar os cavalos.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.