Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Olha, Loló, não te zangues. A gente, afinal, há-de sair daqui muito a tempo de gozar a vida. Se não formos tolas, podemos ir gozando mais do que temos feito. Queres tu saber o que me diz o meu Alfredo? Queres ver quanto ele me ama? Que sacrifício quer fazer por amor de mim? Olha, eu não quis dizer-te o que ele me pedia na carta de hoje, com medo que tu me aconselhasses a não ceder, mas cedo, filha, cedo, que a paixão não tem leis. Pede-me para vir ser minha criada.
- Tua criada! - exclamou Teodora.
- Minha criada! Pois então? - replicou Libana baixando o tom de voz, abafada pelo frouxo do riso.- Não há nada mais fácil. O meu Alfredo tem cara de mulher e não tem ainda barba. Diz ele que se veste à moda das raparigas da minha terra, que me procura com uma carta fingida de minha mãe a pedir-me que receba a portadora como criada; cá no convento ninguém pode impedir-me que eu o receba; a gente há-de ter todo o cuidado que se não descubra o logro; e... tu que me dizes, Loló?
Teodora acudiu com o rosto chamejante de alegria:
- Olha lá, Lili, o meu Afonso também tem cara de mulher, pois não tem?!... Se ele viesse também para minha criada era tão bom!
- O pior é que ele é conhecido, por ter cá vindo muitas vezes - observou Libana.
- O meu Alfredo é que só veio aqui no princípio uma vez, e ninguém o conhece... Não vamos nós botar tudo a perder, Lóló!
- Que pena! -exclamou a morgadinha com os olhos no céu e a mão direita sobre o coração latejante. - Que pena que o meu Afonso não venha também para cá!... Ó Libaninha, vê se inventas alguma coisa, senão a tua amiga morre de tristeza!...
E, dizendo, escondeu o rosto, aljofrado de quatro lágrimas, no seio da amiga.
Que lágrimas! De onde veio ou para onde foi o anjo da inocência, quando um peito virgem tem daquelas lágrimas e uns olhos que ainda não viram os hediondos espectáculos da farsa do mundo podem chorá-las!
Fechou-se a noite. Já a sineta havia chamado as duas meninas rebeldes ao primeiro e segundo aviso. Ergueram-se, deram-se o braço, e foram, na- cela de Teodora, continuar o recendente colóquio do jardim.
Teodora, a não poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga. Mimou-a àtemeridade de receber o atrevido rapazola de Trás-os-Montes, idólatra de uma personagem de romance, único que em sua vida lera, o Lovelace, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo! Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida real, umas saídas muito desgraçadas ou irrisórias!
Ainda bem, para desdouro dos livros desmoralizadores e luzimento de outros livros
de sã moral, que só fazem mal ao publicador que os não vende.
Este Alfredo, que vivia oculto nas cercanias de Braga, aplaudido por Libana em seu projecto, foi à sua terra preparar os vestidos e ensaiar-se em trejeitos mulheris.
Libana tinha uns irmãos, oriundos do mesmo tronco de pai e mãe, os quais, pelos. modos, não tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino da filha e irmã; de onde vinha o serem eles grandemente avelhacados, astutos e espiões das tramóias de Alfredo.
A vila era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas bocas, até aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e outros atafais de mulher, afeiçoados ao corpo de Alfredo. Sem detença, um dos irmãos de Libana saiu para Braga; o outro ficou de atalaia aos movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinação com as autoridades lançou a rede tão a ponto que o infeliz foi capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponesa transmontana, e dali, entre baionetas e escoltado de rapazio, percorreu todas as estações judiciárias desde o regedor até às carícias do carcereiro.
As religiosas, cônscias do escândalo, requereram ao prelado bracarense a expulsão da reclusa que desonrava o convento e contaminava de sua desmoralização as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu irmão, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzela, agourada para extremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres desgarradas do trilho da virtude. Os prognósticos da opinião pública erraram, como se há-de ver num futuro livro.
A gente não sabe ainda bem como este mundo está feito..
VI
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.