Por Lima Barreto (1921)
Não conheço o senhor Lucas do Prado, o famoso “salvador da Pátria”, que, com auxilio de suas bandeirinhas e um apito, proclama, no Largo de São Francisco, as suas virtudes maravilhosas para levar esta “joça” em bom caminho.
Pouco frequento meetings ; é gênero teatral que não me atrai, como não me atraem as revistas do senhor Castro ou de outra qualquer sumidade de escritor teatral; mas sigo a ação do “salvador da Pátria” pelas noticias que os jornais dão das suas pitorescas reuniões.
As suas teorias me seduzem, sobretudo a de fazer dinheiro, papel-moeda, a granel.
Floriano Peixoto que, no dizer de muita gente, sem esquecer o senhor Gomes de Castro e o apóstolo Teixeira Mendes, tinha nessa parte da ciência das finanças a mesma opinião que o senhor Lucas; Floriano foi e é ainda proclamado um benemérito, embora não tivesse tomado, como o senhor Lucas, por antecipação, o título que os povos lhe deram.
Esse negócio de fazer dinheiro devia ser inteiramente livre.
Albino Mendes , que é homem de letras, e, no dizer de muitos, não vulgar, por se ter convencido de semelhante doutrina, quase ficou na cadeia durante catorze anos.
O Estado é contra o indivíduo.
O governo julga-se no direito de fabricar dinheiro, entretanto, contesta semelhante faculdade nos indivíduos.
Porque? É que ele só e unicamente quer merecer confiança; mas confiança não se impõe, lá diz o vulgo, e há Estados que merecem muito menos que o vendeiro ali da esquina.
Todos deviam ter a faculdade de emitir moeda e só a confiança no emissor devia regular o recebimento da mesma.
Eu de muito boa vontade, receberia a que fosse estampada pelo Albino Mendes.
Dizem que são bem feitas, artísticas, bem acabadas, porque não circulam?
É o tirano do Estado, o monopolizador que só quer benefícios para o seu egoísmo sem entranhas.
O senhor Lucas devia ampliar as suas doutrinas financeiras até o ponto que acabo de apontar e a sua tenacidade e entusiasmo de apóstolo talvez conseguissem uma vitória sobre o odioso estanco governamental que nos põe a “nenê”.50
Abaixo a Casa da Moeda! Abaixo o Enes que fabrica tesouros!
Correio da Noite, Rio, 22-1-1915
OS PRÓPRIOS NACIONAIS
Não sei há quantos anos ouço falar nessa questão de próprios nacionais ocupados indevidamente por particulares.
De onde em onde, um paredro lembra na Câmara ou no Senado um alvitre para acabar com semelhante abuso; mas a coisa continua como dantes.
O maior escândalo dessa ocupação indébita foi dado pelo senhor barão do Rio
Branco que, sem lei, autorização, artigo de regulamento, transformou o palácio do Itamarati em sua residência. Ninguém nada disse, porque o senhor Rio Branco podia perpetrar todos os abusos, todas as violações da lei, impunemente.
Guizot , Soult e Wellington , foram ministros de Estado em suas respectivas pátrias e nunca se arrogaram o direito de fazer o que entendessem.
Rio Branco, que, apesar dos seus grandes serviços, não tinha absolutamente o valor desses homens, começou por desobedecer à Constituição, não apresentando os relatórios anuais, transformando um edifício público em sua residência, nomeava para os lugares de seu ministério quem entendia, sem obedecer os artigos da lei, e acabou criando essa excrescência, essa inutilidade que é o lugar de subsecretário das Relações Exteriores.
Esse exemplo foi edificante e depois dele parece que o governo ficou desmoralizado, sem força, sem autoridade para pôr na rua os intrusos que se meteram nos próprios da Nação.
O meu ideal seria que o governo desse uma casa a cada um; mas, como sei muito bem que o custo dessas casas vai recair sobre os que menores cômodos ocuparem, afasto do meu pensamento tão idiota utopia.
O que está se dando é de uma desigualdade assombrosa.
Em todos os ministérios, principalmente no da Guerra, há umas certas pessoas privilegiadas que moram de graça em belos e magníficos palácios.
Não se trata absolutamente de funcionários que, por motivo do seu ofício, se admita tenham casas próximas aos estabelecimentos em que trabalham.
São viúvas, filhas, netas, bisnetas de generais, de coronéis, de majores, que acham muito natural que o Estado tenha para elas cuidados mais paternais que não têm com as viúvas, filhas, sobrinhas, netas e bisnetas de carpinteiros, de calafates, de marceneiros, etc.
Se o governo tem que proteger herdeiros, proteja logo o de todos os que trabalham ou trabalharam, mas não os de indivíduos desta ou daquela classe, para cuja comodidade e segurança ele vai até o ponto de gastar contos de réis na transformação de grandes edifícios públicos, como o antigo hospital do Andaraí, em “cabeça de porco”.
Pai amantíssimo!
Correio da Noite, Rio, 23-1-1915.
A VOLTA
O governo resolveu fornecer passagens, terras, instrumentos aratórios, auxílio por alguns meses às pessoas e famílias que se quiserem instalar em núcleos coloniais nos Estados de Minas e Rio de Janeiro.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.