Por Raul Pompéia (1880)
Viu a estrela d'alva cintilando um pouco por sobre a montanha, cuja base jazia ainda nas trevas, e aos últimos clarões da vela que já desaparecia, vacilando no orifício do castiçal, reunidos à luz lívida e fraca que começava a se espalhar pela planície, distinguiu um pedacinho de papel sobre a janela.
Estava umedecido pelo orvalho e Eustáquio querendo retirá-lo rasgou-o em dous.
O ex-subdelegado, que não dera ao papel grande atenção, viu logo algumas letras e ligando as duas porções leu este aviso, laconicamente amedrontador:
Sentido! Ides ser atacado seriamente. Um amigo.
— Ainda o meu defensor! exclamou Eustáquio, é ele quem me dá uma notícia. Porém o que ele diz é incrível!
Releu cuidadosamente o aviso e voltando-se para a janela gritou:
— Por quem és, ente das sombras, apresenta-te, que te quero entregar a minha vida em recompensa da tua dedicação!
Mas quem depositara o papel sobre a janela já ia longe. Branca que ouvira as vozes do marido já estava no quarto e perguntava:
— Que papel é esse?
Eustáquio escondendo o papel olhou espantado para a mulher e só depois de alguns momentos disse:
— Não é nenhum escrito importante.
— Não creio, quero ver, tornou Branca, aproximando-se do marido.
— Eu não lhe queria revelar, mas se o exige, leia, terminou Eustáquio entregando a Branca os dous pedaços de papel.
A moça, naturalmente medrosa empalideceu à vista do aviso e não pôde deixar de perguntar quem o entregara.
— Que homem benfazejo! disse, quando obteve resposta.
Pouco depois ouviu Eustáquio dizer-lhe:
— Branca, é impossível partirmos já, porque nem há embarcações agora, no povoado, mas hoje à noute eu irei examinar essas matas a fim de tirar as onças do esconderijo...
— Não, eu não consinto! gritou ela, não deixarei você arriscar a vida inutilmente.
— Inutilmente! Então você acaba de ler o aviso e não vê que estamos em perigo! Quer que morramos todos? Eu irei e hei de ser prudente.
— Ah! Vá, mas eu ficarei tremendo.
— Tenha paciência, minha Branca, é a única cousa que posso fazer. Ir atacar antes de ser atacado.
Retirou-se Branca deixando Eustáquio a ruminar o plano da exploração.
Pelas três horas da tarde o tempo mudou. Uma poeirinha líquida começou a cair.
— O tempo é o mais propício possível para a minha expedição, observou Eustáquio.
— Ou para nos virem atacar, acrescentou Branca.
Rosalina já soubera das intenções do seu protetor assim como do aviso que lhe chegara às mãos, porém não sentira por si, a menor emoção.
Tinha a alma familiarizada com a desventura, nada temia. A desgraça é como tudo neste mundo, tantas vezes a vemos que finalmente já não nos impressiona. Rosalina a vira em toda a sua fealdade.
A jovem que viera do povoado acabava de voltar para lá, porque o exsubdelegado, julgando-se em vésperas de partir a despedira.
E o filhinho de Branca agitava-se contente no fundo do berço.
Apenas findou-se o dia, o subdelegado dispôs-se para a excursão.
Escolhera a noite para o proteger com suas sombras visto que a lua em minguante só mui tarde devia nascer.
Depois de armar convenientemente os seus homens e de se agasalhar contra a umidade da noite, abraçou a Branca, fez estalar um beijo na testa de sua protegida, beijou ainda o menino seu filho e saiu.
Quatro lágrimas brilharam-lhe nas extremidades dos olhos.
Entregou a Ruperto a guarda da casa, partindo logo que viu fechar-se atrás de si a sólida porteira do cercado exterior.
Caminharam os exploradores dois minutos por cima de ervas e arbustos que lhes molharam as calças, penetrando em seguida em um bosque difícil de trilhar, graças ao emaranhado de trepadeiras e cipós, juntamente com as moutas densas que as facas cortavam desapiedadamente.
O caminho difícil cessou quando os primeiros declives da montanha se fizeram sentir. Estavam os homens bastante arredados do Iapurá, sem ainda ter encontrado o menor vestígio dos malfeitores.
Viram-se, não é o termo, sentiram-se em uma espécie de caminho que não parecia aberto pela natureza.
— Estamos em uma picada, notou o paraense que seguia, na frente.
— Que talvez nos leve ao nosso destino, disse outro.
Estas palavras trocadas em voz baixa foram as primeiras. Reinava a mais completa escuridão na mata que Eustáquio percorria.
Os seus companheiros, como cegos, apalpavam o caminho com a coronha das espingardas e andavam devagar. A expedição era ousada e seria impossível se a floresta não fosse mais ou menos conhecida pelos paraenses.
Eles caminhavam. Para onde? Não sabiam. O que esperavam? Tudo.
Estavam preparados para fazer frente aos inimigos. Que inimigos?
Eles não conheciam.
Debaixo dos seus passos fugiam reptis, bruscamente despertados, e uma vez puderam ouvir a pouca distância o grito rouco de uma onça, que acelerou-lhes as palpitações do coração fazendo que armassem as espingardas.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.