Por Machado de Assis (1858)
Dos seus alunos no vigário tinha,
As formas adelgaça, o colo estica,
Afila os dedos, o nariz alonga,
E as feições copiando do escrevente,
Busca o vigário, e do âmago do peito
Molemente esta fala arranca e solta:
“Senhor, que grande novidade é esta?
Pela primeira vez, depois das nove,
Esquece-vos colchão e travesseiro,
Que essas valentes e cevadas formas
Com tanto amor criaram? Que motivo
Apartado vos traz da vossa cama?
Porventura, esse cargo precioso
Que tão alto vos pôs nesta cidade
Não vos dá jus a regalar o corpo
Coas delícias do sono? Que seria
Dos empregos mais altos deste mundo
Se não fossem razão de boa vida?
E que lucrais, corri essa guerra?
A vaidade abater de um insensato,
Todo cheio de ventos e fanfúrrias?
Mais do que ele valia Mitridates
Que Luculo bateu; mas quem se lembra
Do forte vencedor do rei do Ponto,
Quando nele contempla o mais conspícuo
Dos grandes mandriões da antiguidade,
Que mais soube comer que Roma inteira?
Deixai lá que se esbofe a inculta plebe
No vil trabalho com que compra a ceia;
Um homem como vós não se afadiga,
Come e ronca, senhor, que o mais é nada.”
II
“Não, amigo (responde-lhe o vigário
Com benévolo gesto, e todo cheio
Dos elogios); não, esta campanha
Tão mesquinha não é, nem tão mofino
O insolente rival. Tolo é, decerto,
E presunçoso; acresce-lhe mordê-lo
Uma inveja cruel do nosso Almada.
Débil não é quem vícios tais reúne.
Derrubá-lo é preciso. O grande nome,
O poder que me dá este meu cargo,
E do prelado a nobre confiança,
Exigem que ao trabalho hoje me entregue
Algum tempo sequer. Nem tu receies
Que eu desperdice as minhas bentas horas
De descanso. Uma só que nisto empenhe,
Tão fecunda há de ser, tão esticada,
Que dará quatro ou cinco em muitas noites,
E tudo se repõe no estado antigo.”
III
Insta a Preguiça; afrouxa, afrouxa quase
O vigário; na mente se lhe pinta
O alto, fofo colchão de fina pluma,
Em que as noites repousa, em que na sesta
A sua reverenda inércia espraia.
Os olhos com fastio aos livros lança;
A descair os membros lhe começam
De languidez; mas a cruel idéia
De ver perdida a posição brilhante
Que na igreja lhe cabe, o brio esperta
Ao grão doutor e lhe dissipa o sono.
Em vão tenta a Preguiça convidá-lo
Com palavras de mel; sacode o corpo,
Encolhe os ombros, os ouvidos cerra,
E ríspido a despede o reverendo.
IV
Apenas se achou só na grande sala,
Com o lenço o papel sacode e a mesa,
E num velho tinteiro mergulhando
A branca pena de um comido pato,
Lança as primeiras regras. Dez autores
Largamente consulta; um trecho saca
Dez tomos diversos e massudos
Com que as velas enfune ao seco estilo.
A cada rasgo da tardia pena,
Que a suada expressão goteja a custo,
A cabeça levanta o reverendo,
Todo o escrito relê com grande pausa,
As paredes consulta. e novamente
Ao trabalho com ânimo arremete.
Enfim, ao cabo de uma hora longa.
A tarefa acabou. Contente salta
Da cadeira, repete a torva prosa,
E vaidoso de si, como dos versos
Que primeiro compôs infantil vate,
As mãos esfrega, os olhos arregala,
Pela sala passeia, e de memória
Algum trecho repete, alguma frase
Que mais arrebicada lhe saíra.
O espanto do ouvidor, o entusiasmo
Do prelado, os pomposos elogios
Da cidade, na mente lhe descreve
Com destra mão e delicadas tintas
A fantasia ... Mas aqui começam
De lhe pesar as pálpebras; a custo,
Trôpego e bocejando deixa a sala,
Entra na alcova, a trancos se despede
Das roupas, e na cama continua
O delicioso sonho interrompido.
V
Lepidamente abrindo o alvo regaço,
E o chão juncando de purpúreas flores,
Do pastor fluminense à casa torna
A travessa alegria, e ao seu aspecto,
Pálida mágoa, lutuosa foges.
Sobre os moles colchões inda estendido,
O lôbrego papel ouve o prelado,
Que o douto Vilalobos lhe recita,
E com exclamações e com palmadas,
Lhe aplaude a erudição e o duro estilo,
E a infalível vitória lhe agradece.
VI
Um a um, vêm chegando os reverendos,
E a todos, um por um, de cabo a cabo,
A intimação lhes lê, que eles escutam,
Com muitos e rasgados elogios,
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.