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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amaro encolheu os ombros. E Amélia atravessou rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos nas lajes, como se passasse entre as ameaças cruzadas dos santos indignados.

•••

No dia seguinte de manhã, a S. Joaneira, que estava na sala de jantar, sentindo o senhor cônego subir soprando forte, veio encontrá-lo à escada e fechou-se com ele na saleta.

Queria contar-lhe a aflição que tivera de madrugada. A Amélia acordara de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no pescoço! que sufocava! que a Totó a queimava por detrás! e que as labaredas do Inferno subiam mais alto que as torres da Sé!... Enfim um horror!... Viera encontrá-la em camisa a correr pelo quarto, como doida. Daí a pouco caíra para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço... A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a manhã apenas tocara numa colher de caldo.

- Pesadelos, disse o cônego. Indigestão!

- Ai, senhor cônego, não! exclamou a S. Joaneira, que parecia acabrunhada, sentada diante dele na borda duma cadeira. É outra coisa: são aquelas desgraçadas visitas à filha do sineiro!

E então desabafou, com a efusão labial de quem abre os diques a um descontentamento acumulado. Nunca quisera dizer nada, porque enfim reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquilo começara, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, então, andava de todo. Ora alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia aos móveis. De noite sentia-a passear pela casa até tarde, abrir as janelas... Às vezes tinha até medo de lhe ver o olhar tão esquisito: quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cair de fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Enfim, dizia-se que a Totó tinha o demônio no corpo. E o senhor chantre, o outro que tinha morrido (Deus lhe fale na alma), costumava dizer que, neste mundo, as duas coisas que se pegavam mais às mulheres eram tísicas e demônio no corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar certa que aquilo nem lhe prejudicava a saúde, nem lhe prejudicava a alma. Enfim, queria que uma pessoa de juízo, de experiência, fosse examinar a Totó...

- Numa palavra, disse o cônego, que escutara de olhos cerrados aquela verbosidade repassada de lamúria; o que a senhora quer é que eu vá ver a paralítica, e saber à justa o que se passa...

- Era um alívio para mim, riquinho!

Aquela palavra, que a S. Joaneira, na sua gravidade de matrona, reservava para a intimidade das sestas, enterneceu o cônego. Fez uma carícia ao pescoço gordo da sua velhota, e prometeu com bondade ir estudar o caso...

- Amanhã, que a Totó está só, lembrou logo a S. Joaneira.

Mas o cônego preferia que Amélia estivesse presente. Podia assim ver como as duas se davam, se havia influência do espírito maligno...

- Que isto que eu faço é de agradecer... É por ser para quem é... Que bem me bastam os meus achaques, sem me ocupar dos negócios de Satanás.

A S. Joaneira recompensou-o com uma beijoca sonora.

- Ah, sereias, sereias!... murmurou o cônego filosoficamente.

No fundo aquele encargo desagradava-lhe: era uma perturbação nos seus hábitos, toda uma manhã desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo de exercitar a sua sagacidade; além disso odiava o espetáculo de doenças e de todas as circunstâncias humanas relacionadas com a morte. Mas, enfim, fiel à sua promessa, daí a dias, na manhã em que fora prevenido que Amélia ia à Totó, arrastou-se contrariado para a botica do Carlos; e instalou- se, com um olho no Popular e outro na porta, à espera que a rapariga atravessasse para a Sé. O amigo Carlos estava ausente; o Sr. Augusto ocupava os seus vagares sentado à escrivaninha, de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fora, o sol já quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lajeado do largo; não passava ninguém; e só quebravam o silêncio as marteladas nas obras do doutor Pereira. Amélia tardava. E o cônego, depois de ter considerado longo tempo, com o Popular caído nos joelhos, o medonho sacrifício que fazia pela sua velhota, ia cerrando as pálpebras, já tomado da quebreira, naquele repouso calado do meio-dia próximo - quando entrou na botica um eclesiástico.

- Oh, abade Ferrão, você pela cidade! exclamou o cônego Dias despertando do seu quebranto.

- De fugida, colega, de fugida, disse o outro colocando cuidadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia, amarrados num barbante.

Depois voltou-se e tirou, com respeito, o seu chapéu ao praticante.

Tinha o cabelo todo branco; devia passar já dos sessenta anos; mas era robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes magníficos a que uma saúde de granito conservava o esmalte; o que o desfigurava era um nariz enorme.

Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava ali de visita ou infelizmente por motivo de doença.

- Não, estou aqui à espera. Uma embaixada de truz, amigo Ferrão!

(continua...)

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