Por Eça de Queirós (1900)
Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzéis de armas puxavam para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta água escura assustava. E, com os dois balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Arruelas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, donde as pedras soltas rolavam. No alto, alguns Cavaleiros ainda se torciam nas selas para silenciosamente remirarem o homem de Baião, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solidão do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos besteiros e fundibulários de Santa Irenéia desfilou, uma rija grita rompeu, com chufas, sujas injúrias ao "perro matador". A meio da escarpa, um besteiro, virando, retesou furiosamente a besta. A comprida garruncha apenas varou a água. Outra logo ziniu, e uma bala de funda, e uma seta barbada - que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novelo de bichas. O Coudel berrou: "cerra! anda!" A récua das azêmolas de carga avançava, sob o estalar dos látegos; os moços da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro cru, balançando um chuço curto: - e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas de ouro.
XI
Quando Gonçalo, estafado e já todo o ardor bruxuleando, retocou este derradeiro traço da afronta - a sineta no corredor repicava para o almoço. Enfim! Deus louvado! eis finda essa eterna Torre de Ramires! Quatro meses, quatro penosos meses desde junho, trabalhara na sombria ressurreição dos seus avós bárbaros. Com uma grossa e carregada letra, traçou no fundo da tira Finis. E datou, com a hora, que era de meio-dia e quatorze minutos.
Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutara, não sentia o contentamento esperado. Até esse suplício do Bastardo lhe deixara uma aversão por aquele remoto mundo Afonsino, tão bestial, tão desumano! Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituíra, com luminosa verdade, o ser moral desses avós bravios... Mas quê! bem receava que sob desconcertadas armaduras, de pouca exatidão arqueológica, apenas se esfumassem incertas almas de nenhuma realidade histórica!... Até duvidava que sanguessugas recobrissem, trepando dum charco, o corpo dum homem, e o sugassem das coxas às barbas, enquanto uma hoste mastiga a ração!... Enfim, o Castanheiro louvara os primeiros Capítulos. A Multidão ama, nas Novelas, os grandes furores, o sangue pingando; e em breve os Anais espalhariam, por todo o Portugal, a fama daquela Casa ilustre, que armara mesnadas, arrasara castelos, saqueara comarcas por orgulho de pendão, e afrontara arrogantemente os Reis na cúria e nos campos de lide. O seu verão, pois, fora fecundo. E para o coroar, eis agora a Eleição, que o libertava das melancolias do seu buraco rural...
Para não retardar as visitas ainda devidas aos influentes, e também para espairecer, logo depois do almoço montou a cavalo - apesar do calor, que desde a véspera, e naquele meado de outubro, esmagava a aldeia com o refulgente peso duma canícula de agosto. Na volta da estrada dos Bravais um homem gordo, de calça branca enxovalhada, que se apressava, bufando, sob o seu guarda-sol de paninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma cortesia imensa. Era o Godinho, amanuense da Administração. Levava um ofício urgente ao Regedor dos Bravais, e agora corria à Torre de mandado do Sr. Administrador...
Gonçalo recuou a égua para a sombra duma carvalha:
- Então que temos, amigo Godinho?
O Sr. Administrador anunciava a S. Exa. que o maroto do Ernesto, o valentão de Nacejas, em tratamento no Hospital de Oliveira, melhorara consideravelmente. Já lhe repegara a orelha, a boca soldava... E, como se procedeu à querela, o patife passava da enfermaria para a cadeia...
Gonçalo protestou logo, com uma palmada no selim:
- Não senhor! Faça o obséquio de dizer ao Sr. João Gouveia que não quero que se prenda ohomem! Foi atrevido, apanhou uma dose tremenda, estamos quites.
- Mas Sr. Gonçalo Mendes...
- Pelo amor de Deus, amigo Godinho! Não quero, e não quero... Explique bem ao Sr. JoãoGouveia... Detesto vinganças. Não estão nos meus hábitos, nem nos hábitos da minha família. Nunca houve um Ramires que se vingasse... Quero dizer, sim, houve, mas... Enfim explique bem ao Sr. João Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assembléia... Bem basta ao homem ficar desfeado. Não consinto que o apoquentem mais!... Detesto ferocidades.
- Mas...
- Esta é a minha decisão, Godinho!
- Lá darei o recado de V. Exa..
- Obrigado. E adeus!... Que calor, bem!
- De rachar, Sr. Gonçalo Mendes; de rachar!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.