Por Euclides da Cunha (1902)
V. O assalto: preparativos; o recontro. Nova vitória desastrosa. Nos flancos deCanudos. Triunfos pelo telégrafo.
VI. Pelas estradas. Os feridos. Primeiras notícias certas. Versões e lendas.
VII. A brigada Girard. Heroísmo estranho. Em viagem para Canudos.
VIII. Novos reforços. O marechal Carlos Machado Bitencourt. Colaboradoresprosaicos demais.
CAPÍTULO I
DESASTRES
A nova deste revés foi um desastre maior.
A quarta expedição organizou-se através de grande comoção nacional, que se traduziu em atos contrapostos à própria gravidade dos fatos. Foi a princípio o espanto; depois um desvairamento geral da opinião; um intenso agitar de conjeturas para explicar o inconceptível do acontecimento o induzir uma razão de ser qualquer para aquele esmagamento de uma força numerosa, bem aparelhada e tendo chefe de tal quilate. Na desorientação completa dos espíritos, alteou-se logo, primeiro esparsa em vagos comentários, condensada depois em inabalável certeza, a idéia de que não agiam isolados os tabaréus turbulentos. Eram a vanguarda de ignotas falanges prontas a irromperem, de remanente, em toda a parte, convergentes sobre o novo regímen. E como nas capitais, federal e estaduais, há muito, meia dúzia de platônicos, revolucionários contemplativos e mansos, se agitavam esterilmente na propaganda da restauração monárquica, fez-se de tal circunstância ponto de partida para a mais contraproducente das reações.
CANUDOS — UMA DIÁTESE
Era preciso uma explicação qualquer para sucessos de tanta monta. Encontraram-na: os distúrbios sertanejos significavam pródromos de vastíssima conspiração contra as instituições recentes. Canudos era uma Coblentz de pardieiros. Por detrás da envergadura desengonçada de Pajeú se desenhava o perfil fidalgo de um Brunswick qualquer. A dinastia em disponibilidade de Bragança, encontrara afinal um Monck, João Abade. E Antônio Conselheiro — um Messias de feira — empolgara nas mãos trementes e frágeis os destinos de um povo...
A República estava em perigo; era preciso salvar a República. Era este o grito dominante sobre o abalo geral...
Exageramos ?
Deletreemos, ao acaso, qualquer jornal daqueles dias.
Doutrinava-se: "O que de um golpe abalava o prestígio da autoridade constituída e abatia a representação do brio da nossa pátria no seu renome, na sua tradição e na sua força era o movimento armado que, à sombra do fanatismo religioso, marchava acelerado contra as próprias instituições, não sendo lícito a ninguém iludir-se mais sobre o pleito em que audazmente entravam os saudosos do Império, francamente em armas."
Concluía-se: "Não há quem a esta hora não compreenda que o monarquismo revolucionário quer destruir com a República a unidade do Brasil ."
Explicava-se: "A tragédia de 3 de março, em que juntamente com o Moreira César perderam a vida o ilustre coronel Tamarindo e tantos outros oficiais briosíssimos do nosso Exército, foi a confirmação de quanto o partido monarquista à sombra da tolerância do poder público, e graças até aos seus involuntários alentos, tem crescido em audácia e força."
Afirmava-se: "Trata-se da restauração; conspira-se; forma-se o exército imperialista. O mal é grande; que o remédio corra parelhas com o mal. A monarquia arma-se ? Que o presidente chame às armas os republicanos ."
E assim por diante. A opinião nacional esbatia-se de tal modo na imprensa. Na imprensa e nas ruas.
Alguns cidadãos ativos congregaram o povo na capital da República e resumiram-lhe a ansiedade patriótica numa moção incisiva:
"O povo do Rio de Janeiro reunido em meeting e ciente do doloroso revés das armas legais nos sertões da Bahia, tomadas pela caudilhagem monárquica, e congregado em torno do governo, aplaudindo todos os atos de energia a cívica que praticar pela desafronta do Exército e da pátria, aguarda ansioso, a sufocação da revolta."
A mesma toada em tudo. Em tudo a obsessão do espantalho monárquico, transmudando em legiões — coorte misteriosa marchando surdamente na sombra — meia dúzia de retardatários, idealistas e teimosos.
O presidente da República por sua vez quebrou a serenidade habitual:
''Sabemos que, por detrás dos fanáticos de Canudos, trabalha a política. Mas nós estamos preparados, tendo todos os meios para vencer, seja como for contra quem for."
Empastelamento de jornais monárquicos
AFINAL A MULTIDÃO INTERVEIO.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.