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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se á autoridade sagrada da sua batina. Ele então, vendo-a chegar tão pálida e tão transtornada, galhofava para a tranqüilizar. Não, era uma tolice, se iam agora estragar o regalozinho daquelas manhãs, porque havia uma doida na casa! Prometera-lhe de resto procurar outro sítio para se verem; e mesmo com o fim de a distrair, aproveitando a solidão da sacristia, mostrava-lhe às vezes os paramentos, os cálices, as vestimentas, procurando interessá-la por um frontal novo ou por uma antiga renda de sobrepeliz, provando-lhe, pela familiaridade com que tocava nas relíquias, que era ainda o senhor pároco e não perdera o seu crédito no Céu.

Foi assim que uma manhã lhe fez ver uma capa de Nossa Senhora, que havia dias chegara de presente duma devota rica de Ourém. Amélia admirou-a muito. Era de cetim azul, representando um firmamento, com estrelas bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flamejava um coração de ouro cercado de rosas de ouro. Amaro desdobrara-a, fazendo cintilar junto da janela os bordados espessos.

- Rica obra, hem? centos de mil-réis... Experimentamo-la ontem na imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez... - E olhando Amélia, numa comparação da sua alta estatura com a figura atarracada da imagem da Senhora: - A ti é que te havia de ficar bem. Deixa ver...

Ela recuou:

- Não, credo, que pecado!

- Tolice! disse ele adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro de cetim branco, duma alvura de nuvem matutina. Não esta benzida... É como se viesse da modista.

- Não, não, dizia ela frouxamente, com os olhos jà1uzidios de desejo. Ele então zangou-se. Queria talvez saber melhor do que ele o que era pecado, não? Vinha agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vestuários dos santos?

- Ora não seja tola. Deixe ver.

Pôs-lha aos ombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto, assustada e imóvel, com um sorriso cálido de gozo devoto.

- Oh filhinha, que linda que ficas!

Ela então, movendo-se com uma cautela solene, chegou-se ao espelho da sacristia - um antigo espelho de reflexo esverdeado, com um caixilho negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento, naquela seda azul-celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrelas, com uma magnificência sideral. Sentia-lhe o peso rico. A santidade que o manto adquirira no contato com os ombros da imagem penetrava-a duma vo1uptuosidade beata. Um fluido mais doce que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a carícia do éter do Paraíso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no Céu...

Amaro babava-se para ela:

- Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhoras !

Ela deu uma olhadela viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas cora o seu rosto trigueiro, de lábios rubros, a1umiado por aquele rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao órgão e um culto sussurrando em redor, faria palpitar bem forte o coração dos fiéis...

Amaro então chegou-se por detrás dela, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda - e estendendo os lábios por sobre os dela, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos de Amélia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para trás, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, ávidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração dela apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfaleceu sobre o ombro do padre, descorada e morta de gozo.

Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as pálpebras como acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:

- Oh! Amaro, que horror, que pecado!...

- Tolice! disse ele.

Mas ela desprendia-se do manto, toda aflita:

- Tira-mo, tira-mo! gritava, como se a seda a queimasse.

Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas...

- Mas não está benzida... Não tem dúvida...

Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lençol branco, colocou-o no gavetão, sem uma palavra. Amélia olhava-o petrificada; e só os seus lábios pálidos se moviam numa oração.

Quando ele lhe disse, enfim, que eram horas de irem a casa do sineiro - recuou, como diante do demônio que a chamasse.

- Hoje não! exclamou, implorando-o.

Ele insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ela bem sabia que não era pecado, quando as coisas não estavam benzidas... Era ser muito pobre de espirito... Que demônio, só meia hora, ou um quarto de hora!

Ela, sem responder, ia-se aproximando da porta.

- Então não queres?

Ela voltou-se, e com uns olhos suplicantes:

- Hoje não!

(continua...)

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