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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Mas porque era elle assim, esse bruto ?

Ella suspirou e revelou-lhe ao ouvido, que era por ser fria com elle » . , . Mas então — com homens de quem não gostava, não podia ser senão fria. E dava-lhe assim a entender a exaltação voluptuosa que mostrara era uma certeza do seu amor por elle.

Áquella revelação, Arthur, apertando-a doudamente nos braços, jurou-lhe que a amava e que a faria feliz : prometeu-lhe que voltaria essa noite mesmo—e que lhe traria uma somDrinha côr de peito de rÔla, que ella vira no Valente e lhe virava

o somno.

Todo o dia, passou-o saboreando, ruminando as felicidades da noite. Sempre, desde Coinn,bra, desde as suas leituras de Musset, as Andaluzas, — tes Andalouses aux seins brunis—se tinham conselvado

para elle como um ideal de voluptuosidade; e a posse d'uma, emfim, e tão tocante, tão infeliz, tão inge- nua, tão aristocratica, dava-lhe como que o orgu lho d'uma iniciação. Comprou-lhe a sombrinha e doug pares de luvas — desejaria dar-lhe diamantes, como um devoto que orna um idolo. E ia pelas ruas com um vago sorriso beato, o corpo lasso, a alma suavemente enternecida, pensando n'ella, parecendo-lhe que a cidade tinha uma elegancia mais amorosa, que o céu era mais azul, e respirando com languidez al guma cousa de romantico e de triste que lhe parecia errar subtilmente no ar.

Pensou mesmo com tedio no Club Democratic0' onde tinha d'ir n'essa noite ; julgava bem seccante o apparato maçador d'uma sessão republicana — agora que só respirava bem no ar abafado do quar tito da Concha. E como quiz ir vêl-a, beijal-a depois do jantar, eram quasi dez horas quando che gou ao Club.

No meio d 'um silencio grave, Mathias acabava de lêr o grande escripto : Programma d'Organi gação Democratica. Como todas as cadeiras estavam occupadas, Arthur, um pouco acanhado, ficou de pé, encostado á parede.

A sala estava quente das respirações e da intensa attengão apaixonada. Mathias pareda palido de fadiga : a sua voz secca, lenta, tinha agora, lendo a peroração, uja vigor exaltante e em todas as physionomias, nas attitudes, havia a animação satisfeita de quem res pira um ar regenerador.

A primeira parte da leitura fôra um libello amargo contra o Regi',nen Constitucional, deduzido por factos e cifras, e que regosijara todos os descontentamentos como a expressão bem clara de odios indefinidos ; depois, a parte pratica do programma, mostrando meios de estabelecer a Republica, apaziguara emfim os ambiciosos, que, até ahi, no Club, só tinham escutado uma vaga phraseologia balançando-se ao acaso ; finalmente, a peroração, as grandes phra ses, com appellos á Justiça e invocações á Liberdade, electrisava os mais obtusos, como uma bella rajada d'instrumentação. Todos pareciam comprehender, querer, sentir : Arthur desconhecia aquelles rostos que vira vazios e aparvalhados e que encontrava agora expressivos e determinados; e elle mesmo se sentiu vibrar, em harmonia com a eloquencia revolucionaria d'aquella prosa elevada— quando Mathias terminou com uma larga apostrophe á Repvblica Universal !

Os bravos I romperam ; um brouhaha animado elevou-se ; e então, no amor, Arthur viu o Mala chias, o homem sujo e ariarello, que fallava voltado para o secretario, agitando um jornal.

— Pego a palavra, pego a palavra ! — exclamava.

Erguera-se e ia fallando baixo a uns e outros com grandes gestos dos seus braços magros. Alguns olhares voltavam-se vivamente para Arthur e tres sujeitos cochichavam com Nazareno, que parecia mais pallido e muito

— Peço a palavra ! — bradou o Malachias, bran dindo o jornal.

A campainha retiniu e subitamente cavou-se um silencio disciplinado. Malachias então olhou em redor com triumpho : a sua larga bocoa fendida alargava-se mais n'um sorriso perverso e acariciava o queixo com os dedos magros, como que ruminando um gozo intimo. Depois de bambolear a cabeça, começou a dizer na sua voz mastigada e aguda, que, antes de discutir o profundo trabalho que todos acabavam d'ouvir com admiração — o Ma thias fez uma: grande cortezia — era do seu dever, do dever de todos —e curvava-se respeitosamente para os lados — proceder a um acto de justiça. Quando elle, na ultima sessão, exigira garantias para os novos membros admittidos, por exemplo o jura mento, bem sabia o que dizia . . .

— Bem sabia o que dizia ! Eu não sou nenhum tolo ! —e agitava os braços, esganiçando a voz — Mas os mestres . . . —e com a bocca arreganhada, baixava a cabeça humilhando-se ironicamente : — Mas os mestres , . E ahi têm o resultado ! Eu não , quero fazer verrinas, mas se me dão licença, sempre lhes passo a lêr o que ge diz n'um jornal, a respeito d'um certo membro ultimamente admittido e os cidadãos verão o que convem fazer !



(continua...)

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