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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

A volta para Lisboa foi lugubre : as raparigas falavarn baixo, tomadas d'um vago terror ; tiuham reconhecido o rapaz — era o Álvaro, o querido da Adelaide, da rua do Norte. Fôra questão de ciumes, de certo ; e gabavam-lhe a coragem, a brancura da pelle, vagamente enamorad2,s d'el]e. Melchior, mudo como uma estatua, sem veia, torcendo nervosamente o bigode, ia sondando os recantos escuros do caminho, no susto de assaltos posciveis, apressando o Teso, avido de se encontrar em Lisboa, no socego das ruas populcsas5 sob a protecção da patrulha. Só começou a tranquilizar-se quando a tipoia rolou pela rua. Era uma pandega estragada! E deblaterava agora contra tudo o que até ahi fôra celebrando : os fadistas, a solidão do Dáfando e as relações de prostitutas.

Foram cear ao Silva. E ahi, bem seguro dentro das qnatro naredes do gabinete. á luz queate do gaz, recobrada a loquacidade, contou outras desordens a que assistira, a maneira como salvara o celebre Viola d 'uma facada do Rei de Copas e os faias que tinha esbofeteado. Estimava agora ter visto aquelle chinfrim e foi á sala procurar pessoas conhecidas a quem repetia prolixamente o caso assegurando que se não fôsse el-le, o pobre diabo escoava-se em sangue.

No emtanto, no gabinete, esperando as ostras, Arthur revirava olhos ternos para a Concha, cons trnindo laboriosamente phrases hespanholas : e para Ilhe dar uma alta idéa do seu valor, recitava-lhe ardentemente dous versos d'Espronceda que sabia de côr :

Porque vuelve a Ia memoria mia

Triste recuerdo dei placer perdido

Ao outro dia, quando ás 10 horas da manhã en-

trou no Hotel para mudar de roupa, vinha enamorado da Concha.

Na intimidade da alcova, ella contara-lhe a sua vida. Não era filha d'um general — segundo a versão de Melchior — mas seu pae, cunhado d'um capitão, negociava honestamente em vinhos, n'uma localidade que ella não quiz revelar. Seduzida — innocente que era então ! — pelo filho d'um marquez, fôra esconder a sua gloria e a sua vergonha n'um terceiro andar da melancolica rua de S. Juan de Dios, em Madrid. O seu amante, cujo titulo era confuso, ora conde, ora simplesmente visconde, era um carlista fanatico, que se alistara nos bandos de Saballo e morrera junto a Estella, n'um encontro de cavallaria. Ella — pobrecíta ! — só, miseravel, depois de ter empenhado uma por uma todas as suas ricas joias — rubis, perolas, diamantes, que o carlista lhe dera com uma profusão de Grande d'Hespanha, vira-se forçada — ah, bem forçada — a aceitar o amor d'um director de caminhos de ferro, um primeiro andar em Fuencarral e um coche. Este coche parecia ser a gloria eminente do seu passado : fazia-o rolar constantemente atravez da sua historia— ora cictoria aberta aos tepidos aromas dos arbustos do Retiro, ora coupé assetinado, correndo silenciosamente sobre a neve da Fuente — pus

xado por um cavallo branco quo se chamava Miramolinos . . . Mas os ciumes ferozes do director de caminhos de ferro, a sua bengala tão dura aos pobres hombros tenros, obrigaram-na um dia a vir refugiar-se em Lisboa, com o « vestidinho que trazia no corpo », n'uma casa amigavel e hospita leira da rua de S. Roque Mui desgraciada !

Depois, fallara mais particularmente dos seus sentimentos. Dizia-se simples como uma creança, amoravel como uma pomba. Para ella, luxos, theatros, toilettes, pouh ! eram miserias ! O seu ideal era ter uma casita sua e um homem novo que a estimasse e a tratasse como uma senhora. Ella mesma coseria os seus vestidos e era facil d'alimentar como um passarinho ! Alguns gravanzos, muita ternura — e era feliz !

Ia revelando estes pormenores do seu passado e do seu caracter, ao mesmo tempo que se despia e mostrava as bellezas da sua nudez. As suas desgragag davam um encanto tocante ás suas fórmas ; havia como uma harmonia entre as fragilidades sentimentaes de sua alma e a delicadeza fina das suas linhas. Arthur escutava-a, fascinado pela sua pelle e enternecido pela sua biographia, cheio d'ardores libidinosos e de piedades christãs ! E emquanto ella punha devagar pó d'arroz ao espelho, com o peitinho ao léu onde corriam veias azues d'uma doçura aristocratica, Arthur, em redor, d'olho acceso e ima-

ginação captivada, impacientava-se no desejo de a possuir commovia-se á idéa de a reoenerar !

Depois, alta noite, ella, fez novas revelações sobre o director de caminhos cle ferro. Era um monstro que lhe puxava pelos cabellos, a amarrava por um tornozelo ao pé d'um buffete e a deixava assim, como uma cabra presa a uma estaca, com um copo d'agua e caranlellos . . . Até uma vizinha, D. Angelica Lorenzo, chorava todas as lagrimas dos seus olhos . . .

Arthur torcia-se, tomado d'un odio infernal pelo director de tos Ferro-Ca,rriles.



(continua...)

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