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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se erguiam os besteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esforço.

No entanto os Cavaleiros de Espanha, de Santa Irenéia, desmontavam cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos outeiros se cobriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dois magros espinheiros toldavam de folha rala, um pajem estendera peles de ovelha para o Sr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa Irenéia. Mas só o velho Castelão se acomodou, para uma repousada delonga desafivelando o seu corselete de ferro tauxiado de ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da sua alta espada, os olhos fundos avidamente cravados na tenebrosa lagoa que, com morte tão fera e tão suja, vingaria seu filho... E pela borda do Pego, peões, e alguns Cavaleiros de Espanha, remexiam com virotôes, com os coutos das ascumas, a água lodosa, na curiosidade das negras bichas escondidas, que o povoam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões amontoada em torno ao Bastardo se arredou: e o forte corpo apareceu, nu e branco, sobre a terra negra, com um denso pêlo ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada noutra mata de pêlo ruivo, e todo ligado por cordas de cânave que o inteiriçavam. Naquela rigidez de fardo, nem as costelas arfavam apenas os olhos refulgiam, ensangüentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns Cavaleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Baião. O senhor dos Paços de Argelim mofou, com estrondo:

- Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de Samora raspou o sapato de ferro pelo ombro do malfadado:

- Vede este Claro-Sol, tão claro, que se apaga agora, em água tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as pálpebras - donde duas grossas lágrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão ressoou pela ribanceira:

- Justiça! Justiça!

Era o Adail de Santa Irenéia, que marchava, sacudia uma lança, atroava os cerros:

- Justiça! justiça que manda fazer o senhor de Treixedo e de Santa Irenéia, num perromatador!... Justiça num perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ela!...

Três vezes pregoou por diante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro, como ajulgadores no seu Estrado de julgamento.

- Aviai, aviai! - bradava o Senhor de Santa Irenéia.

Imediatamente, a um comando do Sabedor, seis besteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com ele entraram na água, até o mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido de agüenta! endireita! alça! num desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado n'água até as virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois nele atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, tão seguro e colado como um rolo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram d'água, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, numa fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Baião bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a água que já o afogava até as pernas, com cordas que o enroscavam até o pescoço, como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabelos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos nela gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Então o atento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silêncio do ermo. A água jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lâmina de estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, arqueiros postados pelo Sabedor atalaiavam, para além, os descampados. Um alto vôo de gralha atravessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flâmulas das lanças cravadas no tojo denso.

(continua...)

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