Por Eça de Queirós (1925)
do Baltresqui. Arthur, um pouco embaraçado, encolhido, admirava a Concha: a mantilha preta dava uma palidez mais mimosa, mais tocante, ao seu rosto de feições finas, d'um tom melancolico ; os seus olhos arabes, humidos, bem rasgados, tinham na sombra uma negrura mais profunda ; recostava-se com um abandono languido mas senhoril, retrahindo castamente os pézinhos para não encontrar as botas d'Arthur. Logo no Aterro, Melchior começou com as suas pilherias : f•azia declarações inflammadas á Carmen — uma grossa andaluza, de grandes carnes e olhos banhados n'um fluido negro como tinta — beijocava-lhe as mãos papudas, chamava-lhe n'um hespanhol gotesco : mi palomba, flor de benedi,ccion remexia-lhe no vestido, attrahia-a pelos braços, fazendo-a rir, d'um riso calido de cocegas e de pandega. Para lhe imitar a animação, Arthur quiz tomar desageitadamente as mãoe da Concha, mas ella, com dignidade, censurando de certo as expansões publicas de concupiscencia, retirou-as brandamente. Aquella frieza chocou Arthur : desesperav a-se por não poder fallar hespanhol e captival-a com a eloquencia da phraseologia poetica. Então recostou-se, calado, a olhar a noite, : uma doçura infinita errava no ar que tinha uma vaga cor d'anil deslavado brancuras de luar banhavam pedaços de fachadas ; e a tipoia corria a trote, com o Teso muito direito na almofada, de cabeça baixa, o pingalim alto, as pontas da faixa. a esvoacar, batendo no seu estylo catita.
— Então isto não é melhor que todas as soiréeg do high-life ? — disse Melchior. — E em passando as portas, salta a bella mulagueña !
E aconselhava Arthur a que se atirasse á Concha e «que se puzesse á altura das circumstancias», que isto de pandega sem animação era dinheiro deitado á rua !
—- Eh, Teso, é bater! é bater !
Tinham passado Pedrouços, adormecido e escuro, e a Carmen, muito solicitada, entoou a sua malagueña : Melchior, mascando o charuto com enthusiasmo, seguia o compasso, saracoteando a cintura e fazia o acompanhamento, batendo as mãos em cadencia. A voz da rapariga era acre e mordente e as notas arrastadas, os á-á-áhs muito modulados, perdiam-se pela noite. misturados ao trotar batido das ferraduras, ao rodar da tipoia no areado do macadam. No alto silencio azulado brilhava uma lua immovel, muito serena, e um ar vivo passava, salgado das emanações do Tio. Arthur sentiu um fluxo de ternura triste, de enleio poetico afogar-lhe o peito e recostando a cabeça, suspirou.
Então, muito terna, a Concha debruçou-se para elle, e, chamando-lhe hijo mio, quiz saber o que o fazia soffrer. Elle carregou a voz de ternura, para dizer : nada! Ella apertou-lhe a mão docemente Arthur duvidou. do seu amor.
Mas Melchior tinha entoado o fado : fazia uma voz especial, estrangulada, do nariz, rouquenha, afadistada :
Eu fui um dia ao Dáfundo,
Ai I Em companhia do Amôri I
Mas interrompeu-se : o fado sem guitarra não ia. No Dáfundo é que haviam de cantar, se lá estivesse o Zé das Tres. Arthur é que havia de vêr ! Era de chorar !
E declarou que tinha fome. Tambem, iam fazer uma ceia real ! Abraçou os joelhos da Carmen, que dava gritinhos, e, para animar o Teso, aconselhou Arthur a que lhe desse um charuto. Chamava-lhe o Tesinho.
— Tenho feito muitas pandegas com elle.- Não é verdade, oh Tesinho ? Hein ? No tempo do snr. Visconde. Hein — Viva o salero ! Lhegamos, nihas !
Estavam com effeito deante do Hotel do Dáfundo. Melchior saltou vivamente — mas ficou á portinhola, escutando, petrificado : do Hotel sahiam gritos de mulheres, uma luz corna no primeiro andar.
— Temos chinfrim disse o Teso, atirando a manta á8 ancas dos cavallos.
As raparigas tinham descido, já assustadas; comtudo entraram. No corredor, um homem cruzou-os, correndo, com uma toalha e uma bacia na mão ; uma mulher, de saia muito engommada, passou aos gemidos, aos ais E Arthur, com a Concha muito tremula agarrando-se-lhe ao b.ra,ço, Melchior, pallido, um nouco encolhido atraz da Carmen, dirigiram-se á sala da esquerda, alumiada, d'onde sahiam os choros dilacerantes d'nma mulher rouca.
Junto da mesa, um homem, com o busto todo nú, o rosto livido, os cabellos empastados n'nm suor frio, erguia ao ar o braço direito, todo coberto d'uma pasta de sangue escuro que gotejava devagar : o chão estava encharcado d'uma humidade negra. Sobre a toalha da mesa, repuxada a nm canto, negra de vinho entornado, estavam pratos quebrados, estilhaços de copos, e uma rapariga que duas mulheres acalmavam, seguravam, chorava convulsivamente, arrepellando-se, com os olhos esgazeados, a face manchada de vermelho. Um individuo gordo e calvo, d'ar importante, procurava vedar o sangue, mas a toalha enrolada ensopava-se depressa : as carnes estavam dilaceradas por facadas transversaes e apenas lavado com muita agua, o sangue recomeçava a correr, cahindo em gotas pesadas. O rapaz immovel, mudo, corajoso, perdia a côr ; os olhos embaciavam-se-lhe. Todos os rostos estavam amarellos de terror : perguntava-se baixo pelo medico t, uma creada, toda esguedelhada, esfregava o chão ; e o dono do hotel, em de camisa, as calcas muito erguidas pelos suspensorios, ia pedindo que se retirassem, que não fizessem barulho », affirmando « que não era nada, que fôra por acaso », seguido da mulher, que, de peitos á mostra, em camisa de dormir, procurava acalmar uma ereanga estremunhada que se torcia, aos berros.
Melchior, muito branco, quiz partir immediatamente ; nem deixou o Teso dar uma sopa ao gado : empurrou á pressa as hespanholas para dentro da caleche, subiu, e fechou rapidamente a portinhoIa, como para se refugiar na tipoia, tremulo, cheio do terror das desordens, dos fadistas, da policia e do sangue,
— Isto só a nós ! — disse elle a Arthur.
Declarou que tinha tonturas :
— Vá, Teso, é largar. É largar, que diabo !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.