Por Eça de Queirós (1900)
- Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!
- Seja! Mandai dar às buzinas.
Ao comando de Afonso Gomes, o Alferes, as buzinas soaram. Um troço de besteiros e de estafeiros leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E, acaudilhada por D. Garcia, a curta hoste meteu para o Pego das Bichas, em desbando com os senhores de lança espalhados, como em marcha de folgança e paz (?), e todos numa rija falada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.
As duas léguas de Tordezelo e do seu castelo formoso, se escondia entre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno silêncio e de eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcara o tio Duarte a desolada asperidão:
Nem trilo de ave em balançado ramo!
Nem fresca flor junto de fresco arroio!
Só rocha, matagal, ribas soturnas,
E em meio o Pego, tenebroso e morto!...
E quando os primeiros Cavaleiros, galgada a lomba dum cerro, o avistaram, na melancolia da manhã nevoenta, emudeceram da larga falada, repuxaram os freios, assustados ante tão áspero ermo, tão propício a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Diante do escalavrado barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos lamacentos, quase chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de besta, negrejava o Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n'água, duramente negra, com manchas mais negras, como lâmina de estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eriçados de mato bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue que escorresse, e rasgado no alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesado era o silêncio, tão pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:
- Feia paragem! E voto a Cristo, a Santa Maria, que nunca antes de nós, nela entrou homemremido pelo batismo.
- Pois, Sr. D. Pedro de Castro! - acudiu o Sabedor já por aqui se moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Soeiro, e de vosso Rei D. Fernando, se erguia naquela beira d'água, uma castelania famosa! Vede além! - E mostrava na ponta do Pego, fronteira ao barranco, dois rijos pilares de pedra, que emergiam da água negra, e que chuva e vento poliram como mármores finos. Um passadiço de traves, sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E a meio desse rude esteio pendia uma argola de ferro.
No entanto já o tropel da peonagem se espalhara pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos besteiros de Santa Irenéia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando a surpresa, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nu, como sua mãe barregã o soltara à negra vida...
Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:
- Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o vilão, e sujar essa água inocente!...
E alguns Cavaleiros, em redor, murmuraram também contra morte tão quieta e sem malícia. Mas os miúdos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam de triunfo e gosto:
- Sossegai, sossegai! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me consente algumastraças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e devagar, pelas grandes sanguessugas que enchem toda essa água negra! D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:
- Vida de Cristo! Que ter numa hoste o Sr. D. Garcia, é ter juntamente, para marchas econselho, enrolados num só, Anibal e Aristóteles!
Um rumor de admiração correu pela hoste:
- Boa traça, boa traça!
E Tructesindo, radiante, bradava:
- Andar, andar, besteiros! E vós, senhores, recuai para a lomba do cerro, como para palanque, que vai ser grande a vista! Já seis besteiros descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com molhos de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rês, toda a rude turma se abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois a grossa roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabelos, filado pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os braços esmagados sob outros grossos braços retesos, o possante Bastardo ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.