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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Antes do luzir da alva, o Bastardo abalara do castelo de Landim, em dura pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogávar nem coudel lhe atalaiavam os trilhos. As cotovias cantavam quando ele, em áspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a Racha do Mouro, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem às adagas cristãs de El-Rei Fernando, o Magno, o Alcaide mouro de Coimbra e a monja que ele arrebatara à garupa. E apenas pela esguia greta enfiara a derradeira lança da fila - eis que da outra embocadura do vale surge o cerrado troço dos Cavaleiros de Santa Irenéia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por trás as lanças dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas duma levadiça. Do recosto dos cerros rola, como represa solta, uma rude e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrível! Ainda arranca furiosamente a espada, que redemoinhando o coroa de coriscos. Ainda com um fero grito arremete contra Tructesindo... Mas bruscamente, dentre um es curo magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de cânave, que o laça pela gargalheira, o arranca num brusco sacão da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E enquanto os Cavaleiros de Baião agüentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera - um rolo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastarn o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despedaçam o brial de lã roxa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas cor de ouro, tão belas e de tanto orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso duma possante mula de carga, o estende entre dois esguios caixotes de virotões, como rês apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam guardando o Cavaleiro soberbo, o Claro-Sol que alumiava a casa de Baião, agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e nelas espetado um triste ramo de cardo - emblema da sua traição.

No entanto os seus quinze Cavaleiros juncavam o chão, esmagados sob o furioso cerco de lanças que os investira - uns hirtos, como adormecidos, dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigais. Os escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a boca duma barroca, sem resgate ou mercê, como alcatéia imunda de roubadores de gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leoneses. Todo o vale cheirava a sangue como um pátio de magarefes. Para reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de Cavaleiros desafivelava os gorjais, as viseiras, arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de relíquias, que todos traziam como bem-tementes. Numa face, de fina barba negra, que uma espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Soeiro de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgara tão docemente e bailara no castelo de

Unhelo - e vergado sobre a alta sela rezou, pela pobre alma sem confissão, uma devota AveMaria. Fuscas, tristonhas nuvens, abafavam a manhã de agosto. E afastados à entrada do vale, sob a ramagem dum velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas, o Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo, vilão de tão negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de quem empurra um arado por terra pedreira - gastara Gonçalo essa doce semana de setembro. E no sábado, cedo, na Livraria, com os cabelos ainda molhados do banho de chuva, esfregava as mãos diante da banca - porque certamente com duas horas de atento trabalho findaria antes do almoço a sua Novela, a sua Obra! E todavia esse final quase o repelia, com o seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esboçara, com esquiva indecisão, como nobre Lírico que ante uma visão de bruta ferocidade solta um lamento, resguarda a Lira, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar a pena, Gonçalo, também, realmente lamentava que seu avô Tructesindo não matasse outrora o Bastardo, no fragor da briga, com uma dessas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, que racham o Cavaleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na História.

Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os três Cavaleiros combinavam com lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo desejara logo recolher a Santa Irenéia, alçar uma forca diante das barbacãs, no chão em que seu filho rolara morto, e nela enforcar, depois de bem açoitado, como vilão, o vilão que o matara. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e também gostoso. Para que rodear por Santa Irenéia, desbaratar esse dia de agosto na arrancada que os levava a Montemor, a socorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavalariço lhe chamuscasse as barbas, e depois outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no pescoço, pachorrentamente.

- Que vos parece, Sr. D. Garcia?

O Sabedor desafivelara o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira da lide:

- Senhores e amigos! Temos melhor, e perto também, sem delongas de cavalgada, logo adiantedestes cerros, no Pego das Bichas... E nem torcemos caminho, que de lá, por Tordezelo e Santa Maria da Varge, endireitamos a Montemor, tão direitos como voa o corvo... Confiai em mim, Tructesindo! Confiai em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e tão vil, que doutra igual se não possa contar desde que Portugal foi condado.

- Mais vil que forca, para Cavaleiro, meu velho Garcia?

(continua...)

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