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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

a Nazareno a resposta do Saavedra. O republicano fez-se pallido de raiva e a sua indignação, exprimindo-se com violencia, chegou a despertar, a aquecer de novo a colera d'Arthur. Tudo provinha d'elles não terem um jornal . . . Um jornal fal-os-ia respeitados, temidos, dar-lhes-ia uma voz, uma po sição

—E onde está o dinheiro ? — exclamou Naza reno.

Arthur, pensando no seu conto de réis, lá na provincia, na burra do Carneiro, calou-se, encolhendo os hombros.

Contou então ao Nazareno, como para o conso lar e mostrar bem a sinceridade do seu despeito, que o Saavedra recusara tambem a inserção d'•am folhetim sobre os Esmaltes. Nazareno, porém, não parecia a Arthur bastante indignado :

— Pois não lhe parece uma grande maroteira, Nazareno

O outro fez um vago gesto d'assentimento e de pois d'uma pausa :

— O Mathias já folheou o seu volume. Acha-o muito erotico . . .

Arthur mordeu os labios e voltou para o Hotel desesperado com aquella opinião. Que entendia o parvo do Mathias de versos e d'e:tylos! Aquella tendencia de querer reduzir toda a Arte. mesmo a Poesia, a um auxiliar subalterno d'ambigües politicas, parecia-lhe d'espiritos estreitos, egoistas. E deitou-se descontente do Saavedra, do Mathias, de Lisboa, de si, da vida.

Acabava de almoçar na manhã seguinte, quando Melchior appareceu com uma face radiante. Atirou um numero do Seculc para cima da mesa, exclamando :

— Ora receba lá esse presentinho !

Que surpreza ! Era uma noticia, a primeira, que dizia :

«O illustre auctor dos Esmaltes e Joias, que tanta sensação têm causado, o nosso prezado ami« go Arthur Corvello, muito conhecido na nossa so ciedade aristocratica onde as suas maneiras, o seu espirito, o tornam alvo das maiores attenções, tem emfim terminado o seu grande drama Amo« res de Poeta, gue brevemente será representado n'um dos nossos primeiros theatros. O drama, que « por alguns trechos que ouvimos nos parece pri morosamente escripto, é um estudo de costumes da alta sociedade e por assim dizer um protesto contra as theorias subversivas, que, aquelles que em Portugal pretendem introduzir as idéas repu blicanas, espa,lbam para destruir a familia, a reli gião, a elegancia e tudo o que constitue o patri monio da gente bem educada. Os Amores de Poeta

são dedicados a um Augusto Personagem. O pu a blico eapera anciosamente este debute theatral do a inspirado vate

Arthur, attonito, exclamou com os olhos muito abertos para Melchior :

— Ora essa . . . Dedicado a um Augusto Personagem

Hein . — exclamou o outro com triumpho — É bem jogada, hein ? É um achado ! É catita ! Que lhe parece ?

Compuzera aquella noticia sobre o drama para o consolar da perda do folhetim sobre os versos e, orgulhoso do « achado » — a idéa da offerta do drama ao Rei, ou á Rainha—repetia com os olhos bri-

lhantes :

—É catita ! de chupeta !

Arthur, embaraçado, disse :

— Mas não é verdade, homem ! Póde-se suppôr que é o Rei.

Está claro que se suppõe ! P'ra isso é que eu escrevi ! Faz um effeitarrão !

— Mas se o Rei sabe . . . abusar.

O outro teve um grande movimento d'hombros : — Ora sebo ! Nem elle sabe, nem s'importa ! se fôr necessario, você dedica-lh'o ! Faz um effeitar• rão... Não ha emprezario que o não queira levar...

Arthur, no meio da sua vaidade satisfeita, tinha uma vaga contrariedade. Que diriam os republica nos, vendo-o assim designado como g o menino bonito» da alta sociedade, fazendo dedicatorias aos tyrannos ? Torceu o bigode, parecia assustado.

— Ainda você não está contente ! — exclamou Melchior, despeitado d'aquelle acolhimento cheio d'embaraço a uma local que devia ser recebida com exclamações victonosas.

Arthur disse :

—Não, estou. Estou penhorado, Melchior, mas.

— Mas quê, com mil diabos ! E esta ?

—É que tenho amigos . . . O Nazareno, o Ma• thias . . . Parece uma traição

A face de Melchior tornou-se grave :

— Você vai por um mau caminho, Arthur. — sem o deixar fallar, com uma verbosidade repen• tina, continuou : — Você se se mette com essa gente está perdido. Eu conheço Lisboa. São muito mal vistos. Se você quer furar e que se falle de si, que se lhe represente o drama e tratar com gente fina, deve deixar essa cambada. Que é que elles lhe podem dar t Divertimentos Onde . . . Empregos Que é d'elles . . . Posição Nicles ' Leval-o á sociedade t Olha quem, os pelintras ! Então p'ra quê f Você póde aspirar a muito : é o que diz o Saavedra. Mas é necessario estar com a gente decente. Veja você : porque não apanhou você o fo• Lhetim no Secuto ? Por causa d'essas historias de

Odes á Liberdade, e Marselhezas e toda essa chol-



(continua...)

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