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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

De tarde, Gonçalo correu à Vila-Clara, à Assembléia, para devorar os outros jornais de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam! A Gazeta do Porto, atribuindo o atentado a Política, ultrajava furiosamente o Governo. O Liberal Portuense, porém, relacionava "com certas vinganças dos republicanos de Oliveira o pavoroso atentado que quase causara a morte dum dos maiores Fidalgos de Portugal e de Espanha e dum dos mais pujantes talentos da nova geração!" Os jornais de Lisboa glorificavam sobretudo "a coragem esplêndida do Sr. Gonçalo Ramires". E o mais ardente era a Manhã, num verboso artigo (decerto escrito pelo Castanheiro), recordando as heróicas tradições da Casa ilustre, esboçando as belezas do Castelo de Santa Irenéia e terminando por afirmar que, "agora, se esperava com redobrada ansiedade a aparição da novela de Gonçalo Ramires, fundada sobre um feito de seu avô Tructesindo no século XII, e prometida para o primeiro número dos Anais de Literatura e de História, a nova Revista do nosso querido amigo Lúcio Castanheiro, esse benemérito restaurador da Consciência heróica de Portugal!" - As mãos de Gonçalo, ao desdobrar os jornais, tremiam. E o João Gouveia, também sôfrego, devorando também os artigos, por sobre o ombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

- Você, Gonçalinho, vai ter uma votação tremenda! Depois nessa noite, recolhendo à Torre,Gonçalo encontrou uma carta que o perturbou. Era de Maria Mendonça, num papel perfumado, com o mesmo perfume que tão docemente espalhava D. Ana pelo adro de Santa Maria de Craquede: - "Só esta manhã soubemos o grande perigo que passou, e ficamos ambas muito comovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e não só eu) muito vaidosa da magnífica coragem do primo. É dum verdadeiro Ramires! Eu não vou aí abraçá-lo (com risco de me comprometer e fazer invejas) porque um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente não é coisa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, ansiamos por ver o herói, e não creio que houvesse nada de extraordinário, nem dum lado nem de outro, em que o primo por aqui aparecesse além de amanhã (quinta-feira) pelas três horas. Dávamos um passeio na quinta, e até se merendava, à boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos cumprimentos, muitos, da Anica, e o primo creia-me, etc." - Gonçalo sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrara, tão claramente, a D. Ana para os braços... E como D. Ana se deixava empurrar, pronta, e de olhos cerrados... Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era também para a Igreja. E de novo sentia aquele vozeirão de Titó, nos degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: 'Essa criatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto!"

Então tomou lentamente a pena, respondeu a D. Maria Mendonça: - "Querida prima - Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus entusiasmos. Não exageremos! Eu não fiz mais que correr a chicote uns valentões que me assaltaram a tiro. É façanha fácil para quem tenha, como eu, um chicote excelente. Enquanto à visita à Feitosa, que me seria tão agradável, não a posso realizar com fundo pesar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mês... Ando ocupadíssimo com o meu livro, a minha Eleição, a minha mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente para mim - cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Peço que apresente à Sra. D. Ana os meus profundos respeitos. E com muitas amizades para si, e bons desejos pelo restabelecimento desse querido Neco, espero me creia sempre seu dedicado e grato primo, etc."

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete de armas sobre o lacre verde, pensava:

- Assim aquele maroto do Titó me rouba duzentos contos!...

Durante toda essa macia semana dos fins de setembro, Gonçalo trabalhou no Capítulo final da sua Novela.

Era enfim a madrugada vingadora em que os Cavaleiros de Santa Irenéia, reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros, surpreendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor, o bando de Baião, na sua açodada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar de armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremetida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejara Tructesindo, com ruidosa aprovação de D. Pedro de Castro, porque não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

(continua...)

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