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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Melchior, porém, comprehendera : muito lealmente, tentara, n'uma noite de lucta, produzir um folhetim sobre os Esmaltes e Jüias ; chegara a obter meia columna em que fallava da nitidez da edição e da grande inspiração Mas faltavam quatro columnas e meia e nem duas chavenas de café, nem charutos fumados á janella com a testa á aragem da noite, nem pitadas de rapé para alliviar o cerebro, nem passeios furiosos pelo quarto, nem a cabeça apertada entre as mãos, como um limão a que se exige o sumo — nada forçara a sua vasta fronte calva, que parecia conter um mundo, a produzir uma linha mais ! E desistira, furioso contra uma « tão extraordinaria falta de veia ».

Arthur agora subia quasi todas as manhãs ao Secuco, pretextando ir dar uma vista d'olhos aos jornaes mas na sua presença, na sua voz, na maneira

de se sentar, Melchior sentia errar uma vaga accusacão — já o temia como a credor.

— Ámanhã, fallo ao Saavedra — jurou-lhe um dia.

E na manhã seguinte, vendo-o entrar, ergueuse logo, e dizendo-lhe baixo que ia decidir a questão, foi bater discretamente com os nós dos dedos á portinha verde do gabinete do snr. Director.

— Entre !

Melchior entrou, fazendo a Arthur um gesto em que lhe promettia ser energico,

Mas d'ahi a momentos voltou e logo da porta abriu os braços, enterrando a cabeça nos hombros, exprimindo toda a sorte de impossibilidades.

— perguntou Arthur.

— Diz que não ! — fez o outro arregalando os olhos. — E levando-o para o vão da janeila : — Não deu explicações, diz que não : um livro communista, cheio d 'horrores . . . O artigo do Mathias tambem. Emfim, diz que não !

Arthur não pareceu muito irritado. Enrolava um cigarro com a cabeça baixa e de repente, um pouco vermelho, com a voz ligeira de quem se record.a d'uma minudencia :

—É verdade, a proposito- e o fcAhetinsiio sobre

os Esmaltes ?

Melchior córou, mas não querendo confessar a sua miseria intellectual :

— Que quer você, tambem diz que não !

— Ora essa !

— Fanei-lhe— continuava o outro com gestos desolados—é por causa da Ode á Liberdade, da Satura á Sociedade diz que não. O jornal está com o governo; se estivesse na opposl(süo, então . . . Diz que não ! — E baixando a voz : Um asno !

Arthur galgou a calçada do Correio, fanando alto d'indignação. Na sua necessidade de desaba far, de rugir, correu ao quarto de Nazareno. o encontrou. Então foi sentar-se para o Passeio, debaixo d'u-ma arvore, e alli ficou ruminando a sua colera. Uma grande doçura parecia cahir do alto azul, purissimo ; o rumor da cidade chegava por fragmentos abafados, como se ficasse preso, enleado nas ramagens meias despidas. Um jardineiro regava. E na rua onde a areia reluzia ao sol tepido, duas creanças muito louras corriam, vigiadas por uma ingleza vestida de verão, de lunetas azues, que lia n'um banco, com um King Charles no regaço. Mas aquella paz de jardim burguez não o calmou. O mundo official, de que o SecuZo era a expressão litteraria, parecia-lhe agora vil, d'uma villeza pequena, piegas, com alguma cousa de senil e d'estupido : nunca se sentira Fio decidido a servir as idéas de Nazareno ! O seu livro, agora, repelido, igno rado da imprensa, parecia-lhe sublime, A recusa do Saavedra, attribuia-a á inveja, talvez á influencia inimiga do Roma. E pensava em cousas vagas que faria, que escreveria, para provar a sua força, fazer sentir a importancia do seu talento . . . Mas pouco a pouco, no amollecimento que lhe dava aquelle tepido meio-dia d'inverno, veio-lhe como que a indefiuida consciencia da sua inhabilidade para a lucta : necessitaria ter uma amizade forte ou um amor inspirador, apoiar-se a alguma cousa de duradouro, de consolador . . . O quê 61 E as duas creanças. correndo, brancas e côr de rosa, frescas como flÔres, appetitosas como fructas, dando-lhe vagos desejos de patern.idade, fizeram-no pensar na familia, n'uma casa bonita, toda sonora de risos de creanças, onde o frou-frou d'um vestido puzesse no ar ambiente uma ternura subtil. Lembrou-lhe a filha do Carneiro. Pouh ! Usava uma cuia postiça e nunca poderia comprehender as necessidades do seu espirito nem as bellezas dos seus versos. Depois, a provincia aterrava-o. Mas Lisboa impacientava-o já. E vinha-lhe como que uma desconsolação de tudo, uma sensação de mal-estar : bocejou enormemente, ergueu-se, foi arrastando os passos, enfastiado, até ao Hotel. Já nem se sentia indignado contra o Saavedra, porque na sua natureza lympbatica tudo se amollecia, fenecia depressa — indignação ou enthusiasmo — como n'um ar sem oxygenio todas as plantas se estiolam.

Á noite, no Martinho, contou tranquillamente



(continua...)

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