Por Eça de Queirós (1875)
- Não, minhas senhoras, não é com livros que se vale à rapariga. Sabem a idéia que me veio? Era um de nós, o que estiver menos ocupado, levar-lhe a palavra de Deus e educar aquela alma! - E acrescentou, sorrindo: - E a falar a verdade, a pessoa mais desocupada aqui de todos nós é a menina Amélia...
Então foi uma surpresa! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda numa revelação. Os olhos de todas acenderam-se numa excitação devota, à idéia daquela missão de caridade, que partia ali delas, da Rua da Misericórdia... Extasiavam-se, no antegosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, numa assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas que o Céu certamente prodigalizaria. D. Joaquina Gansoso declarou com calor que invejava Amélia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.
- Imaginas que não o faria com a mesma devoção? Já estás com orgulho da boa ação... Olha que assim não te aproveita!
Mas Amélia continuava tomada de um riso nervoso, deitada para as costas da cadeira, sufocando-se para se conter.
Os olhinhos de D. Joaquina chamejavam.
- É indecente, é indecente! gritava.
Calmaram-na: Amélia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fora uma idéia extravagante que tivera, que era nervoso...
- Ai, disse D. Maria da Assunção, ela tem razão em se orgulhar. Que é uma honra para a casa!
Em se sabendo...
O pároco interrompeu com severidade:
- Mas não se deve saber, Sra. D. Maria da Assunção! De que serve, aos olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vanglória?
D. Maria vergou os ombros, humilhando-se à repreensão. E Amaro, com gravidade:
- Isto não deve sair daqui. É entre Deus e nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, e não ter elogios nos periódicos. Pois não é assim, padre-mestre?
O cônego ergueu-se pesadamente:
- Você esta noite tem falado com a língua de ouro de S. Crisóstomo. Eu estou edificado; e não se me dava agora de ver aparecer as torradas.
Foi então, enquanto a Ruça não trazia o chá, que se decidiu que Amélia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoção, iria em segredo, para que a ação fosse mais valiosa aos olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralítica, ler-lhe a Vida dos Santos, ensinar-lhe rezas e insuflarlhe a virtude.
- Enfim, resumiu a Sra. D. Maria da Assunção voltando-se para Amélia, não te digo senão uma coisa: abichaste!
A Ruça entrou com o tabuleiro, no meio dos risos que provocara a "tolice de D. Maria", como disse Amélia, que se fizera escarlate. - E foi assim que ela e o padre Amaro se puderam ver livremente, para glória do Senhor e humilhação do Inimigo.
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Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas à paralítica perfizessem ao fim do mês o número simbólico de sete, que devia corresponder, na idéia das devotas, às Sete Lições de Maria. Na véspera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a prática do senhor pároco. Amélia nesses dias erguia-se cedo; tinha sempre alguma saia branca a engomar, algum laçarote a compor; a mãe estranhava-lhe aqueles arrebiques, o desperdício de água-de-colônia de que ela se inundava; mas Amélia explicava que "era para inspirar à Totó idéias de asseio e de frescura". E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito séria, respondendo distraidamente às conversas da mãe, com uma cor nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relógio: enfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ela, depois de uma olhadela ao espelho, saía, dando uma beijoca à mamã.
Ia sempre receosa, numa inquietação de ser espreitada. Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a assustava era o Largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando por trás da janela, exercia uma vigilância incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete, e abaixando o guarda-sol sobre o rosto, entrava enfim na Sé, sempre com o pé direito.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.