Por Eça de Queirós (1900)
Torre, como amigo para o abraço, antes de comparecer, como Autoridade, para o auto. Então Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu generosamente "que se não procedesse contra os bandidos..." O Administrador recusou, decidido e seco, proclamando o princípio da Ordem, e necessidade dum escarmento rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos bárbaros do João Brandão de Midões. Ele e Titó almoçaram na Torre - e Titó, à sobremesa, lembrou galhofeiramente a conveniência dum brinde, e bramou ele o brinde, comparando Gonçalo ao elefante, "sempre bom, que tanto agüenta, e de repente, zás, esmaga o mundo!"
Depois João Gouveia acendendo um grande charuto reclamou a representação verídica da desordem, com os pulos, os gritos, para ele se compenetrar como autoridade. Então através da varanda, reviveu a história heróica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esgaçar) os golpes que arremessara imitando os tombos meio desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó visitaram na cavalariça a égua histórica; e no pátio, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro secando ao sol, lavadas do sangue que as salpicara.
Diante do portão João Gouveia bateu gravemente no ombro do Fidalgo:
- Gonçalo, você deve aparecer esta noite na Assembléia...
Apareceu - e foi acolhido como o vencedor de uma batalha ilustre. No bilhar, por proposta do velho Ribas, flamejou um grande punch - e o Comendador Barros, afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum de graças, de que ele custearia as despesas, com orgulho, caramba! À saída, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia, pelo Manuel Duarte, por outros sócios, encontraram o Videirinha - que não pertencia à Assembléia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lançar duas trovas do Fado, improvisadas nessa tarde, em que o exaltava acima dos outros Ramires, da História e da Lenda!
O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o cantar do Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:
Os Ramires doutras eras
Venciam com grandes lanças, Este vence com um chicote, Vede que estranhas mudanças!
É que os Ramires famosos,
Da passada geração, Tinham a força nas armas E este a tem no coração!
A tão requebrado conceito - os amigos romperam em vivas a Gonçalo, à Casa de Ramires. E o Fidalgo recolhendo à Torre, comovido, pensava:
- É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...
Mas que emoção quando, de manhã cedo, o Bento o acordou com um telegrama de Lisboa! Era do Cavaleiro - que "soubera pelos jornais atentado, lhe mandava entusiástico abraço pela felicidade e pela valentia!" Gonçalo berrou, sentado na cama:
- Caramba! então os jornais em Lisboa já falam, Bento! o caso anda celebrado!
Certamente celebrado! - porque durante o delicioso dia, o moço do Telégrafo, esbaforido sobre a perna manca, não cessou de empurrar o portão da Torre, com outros telegramas, todos de Lisboa, da Condessa de Chelas; de Duarte Lourençal; dos Marqueses de Coja felicitando; da tia Louredo com "parabéns ao destemido sobrinho"; da Marquesa de Esposende "esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!"... E o último do Castanheiro, com exclamações: Magnifico! Digno de Tructesindo! - Gonçalo, pela Livraria, erguia os braços, estonteado:
- Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornais?
E, por entre os Telegramas, acudiam os cavalheiros dos arredores, os influentes - o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Cabralismo; o velho Pacheco Valadares de Sá, que não se espantara do seu nobre primo, porque sangue de Ramires, como sangue de Sás, sempre ferve; o Padre Vicente da Finta, que, com os seus parabéns, ofereceu um cestinho de cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que agarrado a Gonçalo, soluçou, no enternecimento quase ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando "o querido amigo, o amigo da sua Rosa" se encaminhava para a Varandinha. Gonçalo, afogueado, banhado de riso, abraçava, recontava pacientemente a façanha, acompanhava até o portão aqueles cavalheiros, que, ao montar as éguas, ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rígida, na doce claridade da tarde de setembro, como saudando, depois do herói, o secular fundamento do seu heroísmo.
E o Fidalgo, galgando as escadas para a Livraria, de novo murmurava, estonteado:
- Que terão dito os jornais de Lisboa?
Nem dormiu, na ansiedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoroço, rompeu pelo quarto com o correio - Gonçalo saltou, arrojou o lençol, como se abafasse. E logo no Século, sofregamente percorrido, encontrou o telegrama de Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a imensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O Bento quase arrebatou o Século das mãos trêmulas do Fidalgo, para correr à cozinha, bramar à Rosa a notícia gloriosa!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.