Por Eça de Queirós (1925)
Arthur levou o manuscripto, mas estava contrariado. No momento em que elle necessitava do folhetim do Seculo para os Esmaltes, achava imprudente reclamal-o para o livro do Damião. Nazareno parecia-lhe egoista. Era abusar, que diabo ! Tinha agora um vago medo de que o Saavedra consentisse na publicação, e que o livro do Damião tivesse um successo ruidoso em que o seu volumesinho lyrico desappare,cesse, como um suspiro n'uma trovoada. Pensou em guardar o manu.scripto até que sahisse o folhetim do Secado sobre os Esmaltes... Ou ainda, poderia dizer a N"azareno, com um gesto desolado, « que, o patife do Saavedra, nem á quinta facada » . . . Mas então, o patife era elle, Arthur. eQu estupida idéa, a de Nazareno ! Detestava-o agora, e sentia-se inclinar vagamente para as opiniões do Melchior sobre a cambada dos republicanos 9.
Mas ao outro dia, por um sentimento de lealdade — que a claridade limpida da manhã concorreu de certo a fortalecer — foi ao Secuto. E sem calor, cumprindo estrictamente e unicamente o que pro mettera, estendeu o manuscripto a Melchior, dizendo :
— Estimava que você publicasse isto no seu jornal. É sobre o livro do Damião, um amigo meu.
Melchior remexeu as tiras de papel azul quasi com medo. Vinha do Mathias, dos republicanos, e parecia-lhe que sob aquella letrinha miuda se devia tramar alguma cousa de funesto para o Secado, para a Monarchia, para os prazeres tranquilos da Baixa. Deu um olhar desconfiado a Arthur e disse devagar, coçando a cabeça :
— Emfim, eu fallarei ao Saavedra, en não quero compromissos . . . Você bem vê . . . É uma responsabilidade . . . Você tem empenho
Arthur hesitou : porém, a honestidade venceu e disse com firmeza :
— Tenho !
— Bem !
E Melchior fechou o manuscripto á chave, com precaução, como se fosse dynamite ou outra qualquer substancia explosiva.
Arthur passou esse dia e o seguinte fazendo o giro dos livreiros ondo se vendiam os Esmaltes e Joias, para gozar, vendo o volume nas citrines, as primeiras doçuras da publicidade. Não ficou satisfeito : ora o volume não estava bastante em evi.. dencia. ora o achava collocado ao pé d'algum livro fraucez cujo frontespicio illustrado absorvia a attenção ; estes detalhes descontentavam-no. As citrines dos livreiros pareciam-lhe além d'isso bem indifferentes ao publico : homens, senhoras, passavam, na pressa da occupagüo ou no vagar da vadiagem, parando deante das ourivesarias, das camisarias, das modistas — nunca deante dos livreiros. Não encontrava nas physionomias nada que revelasse a impressão dada pelos seus versos : o livro parecia passar sobre a cidade como uma gota d'agua sobre gutta-percha.
Á noite, no Martinho, em S. Carlos, roçava-se pelos grupos, na esperança avida d'ouvir o seu no me : chegavam-lhe fragmentos de palestras sobre politica, fundos, jogo, mulheres, nunca sobre os Esmaltes e Joias. Entrava desconsolado no Hotel e punha-se a relêr o volume : tudo lhe parecia então vulgar, imitado, ma} rimado, chato, e vinham-lhe desesperos mudos e como que um pungente senti- mento de solidão e de treva. Uma idéa consolava-o : áquella hora a linda baroneza tivera o livro, leor-ae palpitava d'emoção, vendo que o sympathico rapaz da Estação d'Ovar era um poeta ! Esperava uma resposta, de visita, uma flôr secca dentro d'um sobrescripto, um amo-te ! n'uma folha de papel perfümado. Nada veio.
Das pessoas a quem offertara o livro não recebera nenhuma palavra animadora. Carvalhosa nem lh'O agradecera ; Meirinho dera-lhe no corredor um obrigadinho secco. O Padilhão dissera-lhe, do outro lado da mesa :
— Lá recebi, está um volumezinho bonito.
Só Nazareno lhe dera uma opini ão critica :
— Você tem a fórma, agora é procurar a idéa. Comprehende„se, n'um primeiro livro de poesia, o genero lyrico. Mas é necessario não repetir. Victor Hugo fez as Orientaes, uma composiçãozinha ridicuIa, mas tomou a sua desforra nos Chatiments. Agora é pôr de lado o amor e os lirios e fallar-nos de cousas mais serias. — E o artigo sobre o livro de Damião
Arthur affirmava— segundo lhe dissera repetidamente Melchior — que o Saavedra o ia lêr . . . Naturalmente publicava-se. Talvez saia ámanhü, acrescentava. Elle venia.
Mas o que realmente queria vêr, todas as manhãs, o que ambicionava @om palpitações do coracão ao abrir o Secuto, era o !olhetim promettido sobre os Esmaltes. Não o encontrava. E vinha-lhe então uma grande irritação por não ver o artigo do Mathias sobre o livro de Damião.
E era aquelle o pretexto que tomava para se indignar contra Melchior, ir á redacção, e, ao principio com modos timidos, depois, mais seccamente, lembrar-lhe a sua palavra
— Oh, menino, o Saavedra lá tem o folhetim . . . Mas era necessario decidir, que diabo . — insistia elle, furioso contra Melchior, que, obtusamente, não comprehendia que a promessa que elle verdadeiramente queria vêr cumprida, não era sobre o livro do outro — bem lhe importava . — mas sobre o seu Sobre o seu !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.