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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Ali está aquela rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! Não sabe ler, não tem devoções habituais, não tem o costume da meditação; é por conseqüência, para empregar a expressão de S. Clemente - uma alma sem defesa. O que sucede? Que o demônio, que ronda constantemente e não perde dentada, estabelece-se ali como em sua casa! Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, são frenesis, desesperos, furores sem razão... Enfim o pobre homem tem a vida estragada.

- E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assunção, indignada daquela impudência de Satanás, instalando-se num corpo, num leito, que apenas a estreiteza do pátio separava dos contrafortes da Sé.

Amaro acudiu:

- Tem a D. Maria razão. O escândalo é enorme. Mas então? Se a rapariga não sabe ler! Se não sabe uma oração, se não tem quem a instrua, quem lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...

Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de ombros vergados, numa mágoa de pastor a quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com efeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão verdadeira por aquela pobre criatura, a quem a falta de consolações devia tornar mais intensa a agonia da imobilidade...

As senhoras olhavam-se, magoadas com aquele caso triste de abandono de alma, - sobretudo pela dor que ele parecia trazer ao senhor cônego.

A Sra. D. Maria da Assunção, que percorria em imaginação o abundante arsenal da devoção, lembrara logo que se lhe pusessem alguns santos à cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o silêncio das amigas exprimiu bem a insuficiência daquela galeria devota.

- As senhoras dir-me-ão, talvez, disse o padre Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como as nossas!

- Todos têm direito à graça do Senhor, disse o cônego gravemente, num sentimento de imparcialidade, admitindo a igualdade das classes logo que não se tratava de bens materiais e apenas dos confortos do Céu.

- Para Deus não há pobre nem rico, suspirou a S. Joaneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino do Céu.

- Não, antes rico, acudiu o cônego, estendendo a mão para deter aquela falsa interpretação da lei divina. Que o Céu também é para os ricos. A senhora não compreende o preceito Beati pauperes, benditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que têm; não aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de não serem benditos. É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que prega que os trabalhadores e as classes baixas devem viver melhor do que vivem, vai de encontro à expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão chicote, como excomungados que são! Ouf!

E estirou-se, extenuado de ter falado tanto. O padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovelo sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia lançar a sua idéia, como vinda de uma inspiração divina, propor que fosse Amélia levar uma educação devota à triste paralítica... E hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de concupiscência. A filha do sineiro aparecialhe agora, exageradamente, abismada numa treva de agonia. Sentia toda a caridade que haveria em consolá-la, entretê-la, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta ação redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita num puro espírito de fraternidade cristã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental de bom rapaz por aquele miserável corpo pregado numa cama sem nunca ver o sol nem a rua... E ali estava embaraçado, naquela piedade que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido quase de ter falado às senhoras da Totó... Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéia:

- Ó Sr. padre Amaro, se se lhe mandasse aquele livro com pinturas de vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me a alma... Não és tu que o tens, Amélia?

- Não, disse ela, sem erguer os olhos da costura.

Amaro então olhou-a. Tinha-a quase esquecido. Estava agora do outro lado da mesa, abainhando um esfregão: a risca muito fina desaparecia na abundância espessa do cabelo, onde a luz do candeeiro ao lado punha um traço lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a pele da face, dum trigueiro cálido, que uma tinta rosada aquecia; o vestido justo, que se franzia numa prega sobre o ombro, elevava-se amplamente sobre a forma dos peitos, que ele via arfar no ritmo da respiração igual... Era aquela a beleza que mais apetecia nela; imaginava-os duma cor de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim, mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham encontrado só a seda fria... Mas na casa do sineiro seriam dele, sem obstáculo, sem vestido, à disposição dos seus lábios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo tempo consolassem a alma da Totó! Não hesitou mais. E erguendo a voz, no meio do palratório das velhas que discutiam agora a desaparição da Vida dos Santos:

(continua...)

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