Por Eça de Queirós (1900)
Com grave amizade acolhia o velho homem de guerra aquele seu primo de Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Irenéia, quando os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornim. Depois, na vasta tenda, reluzente de armas, tapizada de peles de leão e de urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dor represa, a morte de seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado a punhalada pelo Bastardo de Baião, diante das muralhas de Santa Irenéia, com o sol no céu alto a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou a mesa, onde um rosário de ouro se misturava a grossas peças de xadrez; jurou pela vida de Cristo que, em sessenta anos de armas e surpresas, nunca soubera de feito mais vil! E, agarrando a mão do senhor de Santa Irenéia, ardentemente lhe ofereceu, para a empresa da santa vingança, a sua hoste inteira - trezentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.
- Por Santa Maria! Formosa arrancada! - bradou Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas aflamejar de gosto.
Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor entendia que para colherem o Bastardo vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gozada, mais utilmente serviria uma calada e curta fila de Cavaleiros, com alguns homens de pé...
- Por quê, D. Garcia?
- Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da peonada e carriagem correra,com a mira em Coimbra, para se acolher à força da Hoste Real. Nessa noite, com o seu esfalfado bando de lanças, pernoitara certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Miradáes, que trepa e foge através das lombas do Caramulo. Ora ele, Garcia Viegas, conhecia para diante do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos Cavaleiros, e alguns besteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Baião como lobo em fojo...
Tructesindo, incerto e pensativo, metia os dedos lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pusesse batalha ao Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Baião. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos de Espanha e de Portugal que saíssem ao terreiro, diante da tenda, com fartura de tochas para bem se alumiarem. E aí, no meio dos Cavaleiros curiosos, à claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com a ponta duma adaga, o roteiro da sua caçada para lhe comprovar a beleza... Dalém castelo Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam eles, com vinte Cavaleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores de ambas as mesnadas gozassem a lide. Além, se postariam, alapados no matagal, besteiros e peões de frecha. Por trás, deste lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa ajuda ele honrasse o Senhor de Santa Irenéia. Adiante, acolá, para colher pela gorja o vilão, o senhor D. Tructesindo que era o pai e Deus mandava fosse o vingador. E ali, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um porco - e como o sangue era vil, a um tiro de besta encontrariam água farta para lavar as mãos, a água do pego das Bichas!...
- Famosa traça! - murmurou Tructesindo convencido.
E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavaleiros de Espanha:
- Vida de Cristo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui o Sr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei-menino, na grande carreira, para Santo Estêvão de Gurivaz!... Entendido, pois, primo e amigo! E a cavalo, para a monteria, mal reponte a lua!
E recolheram as tendas - que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da ceia, e os uchões acarretavam, dentre os carros da sarga, os pesados odres de vinho de Tordesilhas.
Com a ceia no arraial (grave e sem ruído, porque um luto velava o coração dos hóspedes) Gonçalo terminou, nessa noite, o seu capítulo IV, lançando à margem outra nota: - "Meia-noite... Dia cheio. Batalhei, trabalhei ." - Depois no seu quarto, enquanto se despia, traçou todo o alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria cativo, à mercê vingadora dos de Santa Irenéia... Mas de manhã, antes do almoço, ao abancar com gosto para o trabalho - recebeu dois telegramas, que o desviaram deliciosamente da ardente correria contra o Bastardo de Baião.
Eram dois telegramas de Oliveira, um do Barão das Marges, outro do capitão Mendonça ambos com parabéns ao Fidalgo "por assim escapar de tão terrível espera, destroçando os valentões de Nacejas". O Barão das Marges acrescentava: - "Bravíssimo! É de herói!"
Gonçalo, enternecido, mostrou os telegramas ao Bento. A nova da sua façanha, pois, já se espalhara, impressionara Oliveira.
- Foi o Sr. José Barrolo que contou! - acudiu o Bento. - E o Sr. Dr. verá! o Sr. Dr. verá... Até no Porto se vão assombrar!
Ao bater meio-dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o imenso Titó, acompanhado pelo João Gouveia que chegara na véspera à tarde da Costa, soubera da aventura na Assembléia, corria à
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.