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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

E com effeito, ao outro dia, Arthur ponde lêr.com o coração afogado em vaidade, os elogios do Seculo : « É hoje posto a venda o liVT0 de poesias do nosso « ilustre amigo Arthur Corvello, os Esmaltes e Joias. « É um bello volume de 250 paglnas, nitidamente impresso na excellente typographia de Castro & « Irmão, Vamos lêr e fallaremos d'espaço d'esta in-

« teressante estreia do inspirado poeta. É natural

« que a critica se occupe largamente d'este magni-

« fico volume. Em seguida damos um pequeno ex-

« tracto que nos parece uma verdadeira joia onde « não falta- o esmalte —E seguia-se a transcripção d'uma pequena poesia, em que Arthur, retomando uma antiga imagem do velho Gautier, comparava a sua alma cheia de desejos, a um pombal atulhado de pombas.

Recebeu pouco depois da typographia, os volumes destinados a offertas —e de robe-de-chambre, com uma chavena de café ao lado, passou uma manhã deliciosa, escrevendo dedicatorias na primeira pagina, n'um estylo lapidar, poetico, affectando na irregularidade da letra a desordem da inspiraeão. Remetteu um exemplar ás tias, outros ao Carneiro, á Corcovada, ao Rabecaz, ao Vasco da botica, ao Nazareno, ao Mathias, a D. Joanna Coutinho, ao Padilhão, a Victor Hugo, e outro ainda a Garibaldi, com estas palavras : Ao sublime heroe da espada, o humilde scismador da lyra. Mandou pôr volumes nos quartos de Meirinho e de Carvalhosa e n'um ultimo exemplar escreveu apenas : 15 de Maio. Estação de Ovar. Remember . . . Por entre as folhas pôz duas violetas esmagadas e sobrescriptou para o palacete da snr. a baroneza de Paradas, a S. Bento.

Depois, sentado á janella, com um exemplar na mão, ficou longo tempo a saborear o delicioso orgulho que elle lhe trazia ; o cylindrado do papel dava uma doçura inesperada á harmonia das rimas e a côr de canario da capa, com o seu nome em elzeviriano, enternecia-o ; lia aqui, além, versos, trechos, e ora tinha palpitações de vaidade por bellezas que impressas lhe pareciam d'um brilho particular, ora se assustava com incorrecções de fórma subitamente apercebidas, que lhe tinham escapado nas provas e que decidia emendar na segunda edição.

Entrou n'essa noite no Martinho, commovido. De certo o volume, tornado popular pela noticia do Seeulo, fôra já folheado. No rumor das conversas, parecia-lhe sentir o seu nome, trechos do livro tados ; deviam de certo olhal-o, examinal-o; e calculava os seus movimentos, a maneira de se encostar na cadeira, de passar a mão pelo cabello, para dar de si uma idéa mais favoravel e como que a revelação publica do seu genio intimo.

Nazareno que tomava o seu café, ainda não lera o livro, mas vira a noticia do Secuto.

Palavra, fiquei surprehendido — acudiu Arthur. — Depois da minha questão com o Melchior, imaginei que me fariam guerra. Mas não. No fundo, são bons rapazes—e é necessario estar-se bem com os jornaes . . .

De certo — disse Nazareno que parecia reflectir. E depois d'um momento : — Então o amigo é lá muito da gente do Secuto, hein

Arthur affirmou que tinha alguma influencia no Seculo.

Estimo --- disse Nazareno—porque então vamos arranjar uma cousa . . .

Procurou na algibeira e tirou um rolo de tiras de papel. baixando a voz :

—É necessario fazer publicar isto . . .

Arthur teve um deslumbramento: pensou que por fraternidade revolucionaria, Nazareno fizera um estudo sobre os Esmaltes e Joias ; e a sua desconsolaçüo foi grande quando o outro, com os cotovelos na mesa, o seu ar Iam pouco soturno, lhe disse que era um artigo do Mathias sobre o livro do Damião.

Publicara-se havia uma semana e intitulava-se a Renascença em Portugal. Nazareno affirmou que era um livro concebido n'um espirito muito livre, de grande estylo, d'uma alta sciencia, «a verdadeira iniciação em Portugal da critica historica e litteraria Uma grande obra de democracia, emfim ! Era util para o partido, para os interesses da intelligencia, fazer em torno do livro um ruido d'artigos : como elles não tinham jornal, era necessario de resto era até conveniente — que os jornaes conservadores popularisassem o volume. Elle não conhecia jornalisoas. mas ao vêr a noticiñ do Seculo, sabendo que o amigo Corvello conhecia a redacção, lembrara-se . . . Hein

— Sim, — disse Arthur—fallo ao Saavedra. Até tenho muito gosto . . . Sou amigo do Damião.

— Dá dous folhetins — disse Nazareno.



(continua...)

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