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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e em festa - e Gracinha, à beira do divan, percorria pensativamente a velha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus belos olhos conservavam um ardor; e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, corando, duma enxaqueca. Eram as emoções, o perigo de Gonçalo...

- Também eu tenho dor de cabeça! - declarou o Barrolo, rondando a mesa. - Mas a minha vemda fome... Oh, filhos, é que estou desde as sete da manhã com uma chávena de café e um ovo quente!

Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraçada, esbaforido, escancarando a boca num riso imenso, foi o Joaquim, o moço da cavalariça que voltava da Grainha.

Gonçalo atirou os braços, sôfrego:

- Então?! então?!

- Pois lá estive, meu Fidalgo! - exclamou o Joaquim com o peito a estalar de importância. - E vaipor lá um povoléu, todos já sabem! Uma rapariga dos Bravais espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora. na casa, e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se caiu, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa dum compadre ali ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem boca!... Pois por todos aqueles sítios era o ai-jesus das moças!... E logo lá o carregaram para o hospital de Vila-Clara, que na casa do compadre não pode sarar. Um povoléu, e todos dão a razão ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguém o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!

Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passara dano mais forte, que beleza perdida do D. Juan de Nacejas!

- E então o povo por lá, a falar, a olhar para o sítio?

- Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão, e as pedras por onde se atirou aégua do Fidalgo... E agora até contam que foi uma espera, e que desfecharam três tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no pinhal ainda saltaram três homens mascarados que o Fidalgo escangalhou...

- Eis a lenda que se forma! - declarou Gonçalo.

O Bento aparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo afagou risonhamente o ombro do Joaquim. E embaixo a Rosa que abrisse, para o almoço da família, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a mão nas costas da cadeira murmurou gravemente: - Pensemos um momento em Deus, que me tirou hoje dum grande perigo!

Barrolo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, através dum leve suspiro, pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos; Gonçalo aclamava a travessa de pescada à espanhola - quando o pequeno da Críspola empurrou ainda a porta envidraçada "com um telegrama, que viera da Vila!" Uma inquietação deteve os garfos. A manhã correra com tantas agitações e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triunfo, se espalhara na fina face de Gonçalo:

- Não é nada... É do Castanheiro, por causa dos capítulos do Romance que eu lhe mandei...Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegrama, que os seus olhos afagavam: "Capítulos romance recebidos. Leitura feita amigos. Entusiasmo! Verdadeira obra-prima! Abraço!..."

Barrolo, com a boca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se dissipava:

- Enfim, boa manhã... Grande manhã!

Gonçalo, apesar das insistências de Gracinha e do Barrolo, não os acompanhou para Oliveira no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro Capítulo da Novela, e depois cerrar o preguiçoso giro de visitas aos influentes Eleitorais do Círculo. Assim rematava a Obra de Arte e a obra de Política, e cumpria, Deus louvado, a tarefa desse verão fecundo!

Logo nessa noite retomou o manuscrito da Novela e na margem larga lançou à data uma nota: "Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga terrível com dois homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei severamente..." Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.

(continua...)

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