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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de buriti, sustentado por grossas taquaras, ligeiro apêndice acrescentado por ocasião de alguma passada festa, em que o número de convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ela dividida em dois lanços: um, todo fechado, com exceção da porta por onde se entrava, e que constituiu o cômodo destinado aos hóspedes, outro, à retaguarda, pertencia à família, ficando, portanto, completamente vedado às vistas dos estranhos e sem comunicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e secado o chão desta sala, vendo-se nele sinais de que as vezes ali se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tênue camada de picumã que lhes dava brilho singular como se tudo tora jacarandá envernizado.

—Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se numa tripeça de pau, não é meu, e de quem me procura. Poucos vêm cá decerto parar, mas enfim é sempre bom contar com eles... Minha gente mora na dependência dos fundos.

E apontou para a parede fronteira à porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se estendia além.

—Senhor Pereira, disse Cirino recostando-se a uma sólida marquesa, não se incomode comigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não há ninguém

—Pois então, retorquiu o mineiro, deite-se um pouco, enquanto vou lá dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais cômodo do que ficar de pé ou sentado.

Não desprezou o hóspede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se coloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas léguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o sono cerrar as pálpebras do recém-chegado e intumescer-lhe o peito com sossegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animais que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra. Assomou Pereira à porta com ar jovial.

—Então, que lhe disse eu?

—De fato; estou agora sossegado.

—E o Senhor tomou uma boa data de sono.

—Quem sabe uma hora?

—Boa dúvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocência, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro Preto, quando cai geada na rua.

—Então não vai melhor?

—Qual!... Depois que o Senhor tiver comido, há de ir vê-la. Está, pobrezinha, tão desfeita que parece doente de uns três meses atrás.

—Felizmente, observou Cirino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pô-la de pé em pouco tempo.

—Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira unção.

—Patrícios! O gente! gritou ele em seguida para os dois camaradas chegados de pouco: vão mecês sentar naquele rancho, ali. Perto há boa água, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem, dêem ração de fartar aos animais. Aproveitem o milho, enquanto há: é a sustância desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um atilho por um cobre e não são espigas chuchas, nem grão soboró. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... janta na mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira compridas sem demora.

Apareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão, grosseira, mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas caias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado colocou uma colher e um garfo de metal.

—Sente-se, doutor, disse Pereira para Cirino, agora não mariduco com mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão-cavalo, outro de arroz.

—E as ervas? perguntou Pereira. Não ha?

—Nhor-sim. Eu trago já, respondeu a preta, que com efeito voltou dai a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insuficiência e mau preparo da comida.

—Não lhe dou hoje lombo de porco: mas o prometido não cai em esquecimento, isto lhe posso assegurar.

—Estou muito contente com o que há, protestou com sinceridade Cirino.

E, de fato, pelo modo por que começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

—Maria, disse Pereira para a escrava, que se fora colocar a alguma distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora mel e café com doce.

—Ah! exclamou Cirino com patente satisfação estirando os braços, fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que me deu este bom agasalho.

—Amém! respondeu Pereira.

(continua...)

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