Por Martins Pena (1844)
(Disfarçando a voz como da vez primeira)
Antônio — Da parte da polícia!... (Para Pimenta:) Vá, vá!
Faustino — Avie-se! (Pimenta caminha receoso para o grupo que está no fundo, e com bons modos o faz sair. Faustino, enquanto Pimenta faz evacuar a sala, continua a falar. Para Maricota:) Não olhe assim para mim com os olhos tão arregalados, que lhe podem saltar fora da cara. De que serão esses olhos? (Para o Capitão:) Olá, valente capitão! Está de poleiro? Desça. Está com medo do papão? Hu! hu! Bote fora a espada, que lhe está atrapalhando as pernas. É um belo boneco de louça! (Tira o chapéu e os bigodes, e os atira no chão) Agora ainda terão medo? Não me conhecem?
Todos (exceto Chiquinha) — Faustino!
Faustino — Ah, já! Cobraram a fala! Temos que conversar. (Põe uma das cadeiras no meio da sala e senta-se. O Capitão, Pimenta e Antônio dirigem-se para ele enfurecidos; o primeiro coloca-se à sua direita, o segundo à esquerda e o terceiro atrás, falando todos três ao mesmo tempo. Faustino tapa os ouvidos com as mãos)
Pimenta — Ocultar-se em casa de um homem de bem, de um pai de família, é ação criminosa: não se deve praticar! As leis São bem claras; a casa do cidadão é inviolável! As autoridades hão-de ouvir-me: serei desafrontado!
Antônio — Surpreender um segredo é infâmia! E só a vida paga certas infâmias, entende? O senhor é um mariola! Tudo quanto fiz e disse foi para experimentá-lo. Eu sabia que estava ali oculto. Se diz uma palavra, mando-lhe dar uma arrochada.
Capitão — Aos insultos respondem-se com as armas na mão! Tenho uma patente de capitão que deu-me o governo, hei-de fazer honra a ela! O senhor é um cobarde! Digo-lhe isto na cara; não me mete medo! Há-de ir preso! Ninguém me insulta impunemente! (Os três, à proporção que falam, vão reforçando a voz e acabam bramando)
Faustino — Ai! ai! ai! ai! que fico sem ouvidos.
Capitão — Petulância inqualificável... Petulância!
Pimenta — Desaforo sem nome... Desaforo!
Antônio — Patifaria, patifaria, patifaria! (Faustino levanta-se rapidamente, batendo com os pés)
Faustino (gritando) — Silêncio! (Os três emudecem e recuam) que o deus da linha quer falar! (Assenta-se) Puxe-me aqui estas botas. (Para Pimenta:) Não quer? Olhe
que o mando da parte da... (Pimenta chega-se para ele)
Pimenta (colérico) — Dê cá!
Faustino — Já! (Dá-lhe as botas a puxar) Devagar! Assim... E digam lá que a polícia não faz milagres... (Para Antônio:) Ah, senhor meu, tire-me esta casaca. Creio que não será preciso dizer da parte de quem... (Antônio tira-lhe a casaca com muito mau modo) Cuidado; não rasgue o traste, que é de valor. Agora o colete.(Tira-lhe) Bom.
Capitão — Até quando abusará da nossa paciência?
Faustino (voltando-se para ele) — Ainda que mal lhe pergunte, o senhor aprendeu latim?
Capitão (à parte) — Hei-de fazer cumprir a ordem de prisão. (Para Pimenta:) Chame dous guardas.
Faustino — Que é lá isso? Espere lá! Já não tem medo de mim? Então há pouco quando se empoleirou era com medo das botas? Ora, não seja criança, e escute... (Para Maricota:) Chegue-se para cá. (Para Pimenta:) Ao Sr. José Pimenta do Amaral, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional, tenho a distinta de pedir-lhe a mão de sua filha a Sr.a D. Maricota... ali para o Sr. Antônio Domingos.
Maricota — Ah!
Pimenta — Senhor!
Antônio — E esta!
Faustino — Ah, não querem? Torcem o focinho? Então escutem a história de um barril de paios, em que...
Antônio (turbado) — Senhor!
Faustino (continuando) — ... em que vinham escondidos...
Antônio (aproxima-se de Faustino e diz-lhe à parte) — Não me perca! Que exige de mim?
Faustino (à parte) — Que se case, e quanto antes, com a noiva que lhe dou. Só por este preço guardarei silêncio.
Antônio (para Pimenta) — Sr. Pimenta, o senhor ouviu o pedido que lhe foi feito; agora o faço eu também. Concede-me a mão de sua filha?
Pimenta — Certamente... é uma fortuna... não esperava... e...
Faustino — Bravo!
Maricota — Isto não é possível! Eu não amo ao senhor!
Faustino — Amará.
Maricota — Não se dispõe assim de uma moça! Isto é zombaria do senhor Faustino!
Faustino — Não sou capaz!
Maricota — Não quero! Não me caso com um velho!
Faustino — Pois então não se casará nunca; porque vou já daqui gritando
(gritando:) que a filha do cabo Pimenta namora como
uma danada; que quis roubar... (Para Maricota:) Então, quer que continue, ou
quer casar-se?
(continua...)
PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.