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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

Jorge começou a achar mais agradável a casa do que a rua; e as noites, quando não havia pessoas de fora, passava-as à volta de uma mesa, lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as trabalhar, enquanto contava anedotas da academia, lia as correspondências do Paraguai e de Buenos Aires, ou simplesmente alguma página de romance. Nessa vida, meio patriarcal, as horas corriam depressa, tão depressa, que ele não as sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se ele seu próprio confessor, examinou a consciência, descobriu lá dentro alguma cousa que não era a fantasia sensual do primeiro instante, e, longe de absolver-se, condenou-se à crua penitência de abstenção. Voltou aos antigos hábitos e deixou os serões domésticos. Mas a aplicação do remédio, por mais sincera que fosse, já não podia muito contra a ação do mal. Estela freqüentava-lhe tenazmente a memória; e na rua, no teatro, nas assembléias a que ia, o perfil severo da moça vinha meter-se entre ele e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a convalescença não era ainda difícil; mas como fugir à lembrança de uma mulher, cuja figura lhe aparecia durante algumas horas de cada dia? Demais, a sonâmbula que ele tinha no cérebro vinha auxiliar a fatalidade das circunstâncias. No fim de um mês, a índole do sentimento havia mudado: era mais pura; mas o sentimento não parecia disposto a esvair-se: era mais violento.

Como o Sr. Antunes levasse a filha, uma noite, a visitar pessoa de sua amizade, Jorge aproveitou a circunstância para insinuar a Valéria a conveniência de restituir Estela a seu pai.

— Por quê? perguntou a viúva.

— Sempre é um tropeço, uma pessoa estranha metida entre nós, — replicou Jorge. Não lhe nego que tem boas qualidades; mas... é uma pessoa estranha.

— Que importa, se me dou bem com ela? Conheço-a desde pequena; é uma companhia melhor do que qualquer outra. Mas por que te lembras disso agora?

— Estive pensando na responsabilidade que pesa sobre nós. Se fosse nossa parenta, vá; não se podia dispensar a obrigação; mas não sendo, creio que era melhor libertarmo-nos.

— Descansa; na ocasião oportuna casa-la-emos. O que não admito é algum marido de pouco mais ou menos. Há de ser pessoa que a mereça, e que a mereça muito. Tu não sabes o que vale aquela menina. Não é só um bom coração; é alguma cousa mais. Tem certa elevação de sentimentos; nunca me desatendeu e nunca me adulou. Jorge confirmou com a cabeça e não disse mais nada. O que acabava de dizer não passava de uma tentativa sincera, mas frouxa, para arredar Estela da casa; era o imposto pago à consciência. Quite com ela, entregou-se aos acontecimentos, confessando a si mesmo que o perigo não era tão grave, nem o remédio tão urgente; finalmente, que ele era homem.

No meio de semelhante situação, que sentia ou que pensava Estela? Estela amava-o. No instante em que descobriu esse sentimento em si mesma, pareceu-lhe que o futuro se lhe rasgava largo e luminoso; mas foi só nesse instante. Tão depressa descobriu o sentimento, como tratou de o estrangular ou dissimular, — trancá-lo ao menos no mais escuso do coração, como se fora uma vergonha ou um pecado.

— Nunca! jurou ela a si mesma.

Estela era o vivo contraste do pai; este lacaio gerara aquela senhora. Obscura e pobre, sem o esplendor da riqueza ou da posição, tinha contudo a alma acima do destino. Era orgulhosa, e tão orgulhosa que chegava a fazer da inferioridade uma auréola; mas o seu orgulho não derivava de inveja impotente ou de estéril ambição; era uma força, não um vício,

— era o seu broquel de diamante, — o que a preservava do mal, como o do anjo de Tasso defendia as cidades castas e santas. Foi esse sentimento que lhe fechou os ouvidos às sugestões do outro. Simples agregada ou protegida, não se julgava com direito a sonhar outra posição superior e independente; e dado que fosse possível obtê- la, é lícito afirmar que recusara, porque, a seus olhos seria um favor, e a sua taça de gratidão estava cheia. Valéria, que também era orgulhosa, descobrira-lhe essa qualidade, e não lhe ficou querendo mal; ao contrário, veio a apreciá- la melhor. É que a moça sabia ter a gratidão compatível com a dignidade; a úlcera de seu coração era justamente a índole do pai, irremediavelmente servil.

Não somente o orgulho de Estela lhe fizera calar o coração, mas até lhe infundira a confiança moral necessária para viver tranqüila no centro mesmo do perigo. Jorge não percebera nunca os sentimentos que inspirara; e, por outro lado, nunca viu a possibilidade de os inspirar um dia. Estela só lhe manifestava o frio respeito e a fria dignidade.

Um dia, vagando uma casa de Valéria no caminho da Tijuca, determinou-se a viúva a ir examiná-la, antes de a alugar outra vez. Foi acompanhada do filho e de Estela. Saíram cedo, e a viagem foi alegre para a moça, que pela primeira vez ia àquele arrabalde. Quando a carruagem parou, supunha Estela que mal tivera tempo de sair da Rua dos Inválidos. A casa precisava de alguns reparos; um mestre-de-obras, que já ali estava, acompanhou a família de sala em sala e de alcova em alcova. Só ele e Valéria falavam; Estela não tinha voto consultivo, e Jorge parecia indiferente. Que lhe importava a ele o reboco de uma parede ou o conserto de um soalho? Ele gracejava, ria ou sussurrava ao ouvido de Estela um epigrama a respeito do mestre-de-obras, cuja prosódia era execrável. Estela, que sorria com ele, cerrava entretanto o gesto aos epigramas.

(continua...)

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