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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ (Abrindo grande guarda-chuva inglês) – Eis aqui a barraca do Braz! (A Clemência) Está vendo? um velho amigo vale mais do que três namorados. (Multidão de ambos os sexos a fugir da chuva, uns com chapéus de chuva e outros sem eles; Violante segue enfim ao braço de Leopoldo. Polidoro também a serve, inclinando para a frente o guarda-chuva; Augusto fazia o mesmo, mas Casimiro agarra-se a ele e o conquista à força. Braz a rir leva Clemência desapontada. Corrida geral)

FIM DO SEGUNDO ATO

ATO III

Sarau em casa de Violante; a grande varanda sobre o jardim que fica ao fundo; portas aos lados comunicando com o interior da casa; ao lado direito parece ficar o salão da dança e da música.

CENA I

CASIMIRO e IRENE

IRENE – Basta, senhor! não posso ouvi-lo mais; até hoje tenho tolerado lisonjas que me pareciam gracejos de um homem idoso a uma menina; nem um só instante, porém, autorizei pretensões, que, ainda mesmo sendo honestas, me causariam repugnância. Agora o senhor acaba de levar as suas impertinências até um ponto, além do qual me aviltaria com a injúria...

CASIMIRO – Calunia as minhas intenções... atenda-me, bela Irene!

IRENE – Lembrou-me a tempo a pobreza, e a triste posição da minha família...

eu não devia ter entrado nesta casa... não é aqui o meu lugar... deixe-me... quero ir ver meu irmão.

CASIMIRO – É uma injustiça... protesto... não há de retirar-se... não perturbará com um desgosto esta reunião...

IRENE – Deixe-me passar... senhor...

CENA II

CASIMIRO, IRENE e VIOLANTE

CASIMIRO – Mana, reclamo a sua intervenção contra a nossa bela vizinha, que pretende retirar-se, supondo-se com dores de cabeça... (A Irene) por quem é! (A Violante) eu as deixo... mas você, Violante... prenda dª. Irene aqui.

CENA III

IRENE e VIOLANTE

VIOLANTE – Que tem, menina?

IRENE – Tenho... seu irmão o disse, minha senhora... uma forte enxaqueca... eu não devia ter vindo... é castigo...

VIOLANTE – Enxaqueca! ah! eu sei o que isso é; e por fim de contas o egoísta queria obrigá-la a ficar! enxaqueca menina, vou chamar já seu irmão para conduzi-la.

Coitadinha! (Indo-se)

CENA IV

IRENE, VIOLANTE e BRAZ

BRAZ – Não vá.

VIOLANTE – Por que?

BRAZ – A enxaqueca de dª. Irene é um pretexto generoso...

IRENE – Senhor!

BRAZ – Não há murmurador que não seja curioso; nas reuniões e em toda parte o meu ofício é espreitar: nobre menina, eu ouvi tudo.

IRENE – Ah!

BRAZ – Não curve a fronte, onde julgue o diadema da honestidade; mas não há razão nem para tanto vexame, nem para tão brava revolta.

IRENE – Não há razão?

BRAZ – Madrinha, parvoíces de Casimiro! no meio de um fogo volante de juramentos de amor, o velho namorado lembrou a esta menina a humilde posição social de sua família, e a insuficiência de seus recursos, e procurou deslumbrá-la com a riqueza que ele espera partilhar com a irmã, meio milhão; explicou-se porém de modo, que dª. Irene o entendeu mal.

IRENE – Do que ouvi a um insulto é pequena a distância...

BRAZ – Está confessando que não houve insulto...

VIOLANTE – Casimiro é tão capaz de todas as asneiras, como incapaz de uma ofensa.

IRENE – Ainda assim... devo, quero retirar-me.

BRAZ – Que teimosa! escute; a senhora não pode deixar-nos; a madrinha e eu formamos aqui uma espécie de maçonaria, em que ninguém mais devia entrar; a menina porém acaba de iniciar-se à força pela dignidade com que se houve repelindo Casimiro, e agora é fato consumado, está maçônica... eis o toque... (Beija-lhe a mão) VIOLANTE – Entendo, Braz... ela há de ficar...

IRENE – É impossível... perdão, minha senhora... eu desprezo o dono desta casa.

BRAZ – Dª. Irene, o irmão da dona desta casa tem um filho...

IRENE – Sobrinho de uma senhora riquíssima, de quem será um dos herdeiros: eu o sei.

BRAZ – Meio ou muito estouvado; mas bom e elegante rapaz, a quem uma bela e ajuizada noiva pode bem fazer assentar a cabeça.

IRENE – Sim... confesso... eu o amava... amo-o talvez ainda; mas hei de vencer este amor: o pai de Mário abriu-me os olhos.

BRAZ – Já não é pequeno favor: e agora, com os olhos abertos, que vê?

IRENE – Vejo o meu horizonte, e não quero sair dele; há certas flores que se amesquinham, e, em vez de vicejar, desabrocham como que em constrangimento, quando a riqueza e o luxo as cultivam por meios artificiais fora dos seus climas; as moças pobres devem ser assim. Cada qual no seu horizonte; casamentos desiguais são erros perigosos; procurarei um marido entre os artistas ou os operários laboriosos.

VIOLANTE – Menina, meu sobrinho pertence absolutamente ao seu horizonte, menos pelo juízo e pelo labor; já vê que nem mesmo a iguala.

IRENE – Agradecida; este amor foi para mim até hoje doida fantasia poética; se, porém, amanhã o sr. Mário me pedisse em casamento, eu o rejeitaria; perdão... quero meu pobre irmão... quero ir-me embora...

(continua...)

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