Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Venâncio, que almoça com boa vontade de quem sabe que a mesa é o único prazer que lhe resta no mundo.
Tomásia, que, devorando quanto vê diante dos olhos, assegura a todos os momentos que nunca tem fome, mas que se vê obrigada a alimentar-se por causa da sua querida filhinha, que deseja amamentar com os seus próprios seios, medrosa dos inconvenientes do leite mercenário.
Félix, moço de vinte e seis anos, de estatura ordinária, magro, pálido, com as mãos muito brancas e bem-feitas, desconfiado e melancólico de natureza, mas com tais qualidades modificadas pela freqüência das sociedades, vestia calças e colete branco e uma sobrecasaca, que magnificamente lhe assentava; tinha ao pescoço uma gravata de cor, muito baixa, e bordada com igualdade matemática por uma estreitíssima dobra do colarinho; sobrinho de Tomásia, freqüentava ele com admirável assiduidade a casa da titia; comendo com a rapidez e boa vontade de um caixeiro, de cada vez que levava o bocado à boca, Félix lançava uma olhadura fulminante sobre a prima Rosinha.
Rosa é a mocinha, a quem já conhecemos do teatro; com os seus dezesseis para dezessete anos, é ela uma menina dessas moreninhas capazes de fazer andar com a cabeça à roda a mais de meia dúzia de rapazes a um tempo; pouco alta, esbelta, com lindos e vivos olhos pretos, com pequeninas mãos, proporcionados pezinhos, Rosa, que se vê ao espelho mais de trezentas vezes por dia, gosta muito de si mesma, e, animada pela perigosa educação com que foi criada, é sem mais nem menos conquistadora, travessa e espertinha demais; como tem às suas ordens a chave da despensa, e o dia inteiro por seu, ela come menos que um passarinho diante dos hóspedes, e serve o chá tomando as taças com as pontas dos dedos, mostrando assim um rico anel de brilhante que nunca deixa.
Finalmente Manduca, com quem igualmente já tomamos conhecimento no teatro, era o predileto de Tomásia, rapaz apaixonadíssimo por pão com manteiga, com a qual já tinha emplastrado três partes do seu escarpado rosto.
Tomando a última gota de chá, Venâncio levantou-se, como quem se supunha demais naquela roda, e retirou-se.
Apenas acabava de sair o velho marido, Brás-mimoso voltou-se para a dona da casa, e disse:
— Devo confessar-lhe, Sr.ª D. Tomásia, que tenho dado tratos ao pensamento para penetrar aquele mistério, do qual me falou ontem à noite.
— Mas... não me recordo.
— Ora... quando me perguntou se eu conhecia o moço da gravata azul-celeste.
— Veja só!... pois ainda se lembra disso? estou pensando que só para fazer-me essa pergunta veio dar-nos o prazer de almoçar conosco; vês, Rosinha, nós as mulheres somos exclusivamente as curiosas...
— Mas como me tinha prometido a decifração do mistério...
— Sim... sim... porém, eu disse isso somente para acender algum ciumezinho no coração do meu Venâncio... bem sabe que o ciúme é o adubo do amor... eu por mim sou ciumenta como o mouro de Veneza.
— Bravo, minha mãe!... bravo!... exclamou o interessante Manduca.
— Cala-te, Manuelzinho, diz Tomásia, não é bonito interromperes tua mãe.
— Apesar de toda a sua modéstia, tornou Brás-mimoso, eu juro pelos olhos da Sr.ª D.
Rosa que não é de um ciúme; porém, de uma conquista de que se tratava no teatro.
— Muito bem! disse Rosa, então jura pelos meus olhos?...
— Pois não, minha senhora, sempre se jura por algum objeto sagrado.
— Ora...
— Deixemos isso, acudiu Tomásia, mas já que o Sr. Brás levantou a ponta do véu, é melhor que o rasguemos todo.
— Minha mãe, disse Rosa em segredo, olhe meu primo...
— Que tem?... ouça, meu sobrinho, Rosa tem medo que se fale em sua presença... dir-seia que tu e ele são dois apaixonados.
— Aparências, minha tia, aparências...
— Também o que se vai dizer não é mais que um desses casos de todos os dias... — Um desses casos que sucedem a minha prima todos os dias?... perguntou o tal primo
Félix.
— Há de ser pouco mais ou menos isso, respondeu a moça ressentida.
— Estavam ontem à noite num camarote, disse Tomásia dirigindo-se a Brás-mimoso, duas senhoras; uma casada, e outra solteira; um moço, que se achava na superior, gastou a noite inteira em prestar-lhe a mais obsequiosa atenção; esse moço trajava-se elegantemente; trazia um rico relógio, um excelente alfinete de brilhantes, gravata azul-celeste, luvas de pelica cor-decarne, enfim, vestia com o último apuro do bom gosto. Daqui tiram-se três conclusões: primeira — o moço gostou de uma das senhoras; segunda — o moço parece não ser pobre; terceira — o moço é adepto ao culto do bom gosto.
— Eu tenho reparado, disse o primo Félix, que minha tia é lógica até à ponta dos cabelos; a prima Rosinha deverá aproveitar muito, pois mostra grande capacidade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.