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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Como e por que o ajudante oficial da sala do Vice-Rei Conde da Cunha meteu-se a jogar a banca na casa de João Fusco; desenvolve-se a história que parece romance, e na qual são personagens João Fusco e a Sra. Helena, a menina Águeda, a mãe Jacoba, o cão Degola, o oficial da sala, o sacristão da Igreja de S. José e um lobisomem que uma noite põe em desordem a banca, e perseguido pelos jogadores escapa abismado na vala, enquanto o sacristão de S. José, aproveitando o ensejo, bate a linda plumagem com a menina Águeda, logo depois sua esposa: diz-se como o banho do lobisomem foi o motivo de se cobrir a vala com lajedos; o oficial da sala faz prender por falsas suspeitas de pasquineiro o sacristão, que é solto por intervenção do vigário, e transcreve-se um pasquim que apareceu em frente à Rua do Padre Homem da Costa junto da vala.

O Vice-Rei Conde da Cunha foi mas não foi quem mandou que a Câmara Municipal fizesse cobrir com lajedos a vala nauseabunda e pestífera. Este foi mas não foi parece absurdo; é, porém, uma das verdades mais verdadeiras, que ainda às vezes se revelam em fatos. Foi porque assinou a ordem, mas não foi - porque de outrem partiu a iniciativa e a determinação.

O Conde da Cunha, velho, achacado e sem atividade, era o Vice-Rei; via, porém, pelos olhos, e governava pela cabeça de seu ajudante oficial da sala, o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso de Menezes, que por muito hábil, inteligente e insinuante ganhara sua inteira e cega confiança e se tornara o vice-rei de fato.

Infelizmente Alexandre Cardoso era de mau caráter, de costumes dissolutos, jogador, libertino, desenfreado em suas paixões, e tanto mais perigoso, que além de valente e corajoso, dobravam-lhe a ousadia, o poder de que dispunha e a certeza da impunidade.

No tempo do vice-reinado do Conde da Cunha jogava-se muito, jogava-se demasiadamente na cidade do Rio de Janeiro, muito e apenas um pouco menos do que atualmente. O jogo dominante era então a banca.

Alexandre Cardoso jogava quase todas as noites; mas só em rodas de gente rica e a mesas cobertas de ouro; uma vez, porém, fez exceção a essa regra.

Uma noite, em 1764 ou em 1765, passando ele pela Rua da Vala, entrou como por acaso na loja de João Fusco e pediu ao caixeiro biscoitos de carimã, balas, e mais ia pedir quando se interrompeu perguntando:

- Que fazem lá dentro?

- Jogam a banca; sim senhor.

- Chama João Fusco.

João Fusco correu logo ao chamado.

- Eu também quero jogar, disse Alexandre Cardoso.

E entrou sem-cerimônia, dizendo aos jogadores que respeitosos e surpresos se levantaram.

- Não há nada de novo, é apenas mais um parceiro.

Alexandre Cardoso mostrou-se agradável, desfez o acanhamento da companhia, jogou, perdeu duzentos cruzados, e alegre, e brincalhão levantou-se e disse:

- Basta por hoje, voltarei porém à desforra, João Fusco! na tua casa joga-se liso. Adeus.

E saiu.

Agora breve explicação.

João Fusco, a quem tinham alcunhado Fusco pela cor muito trigueira, era ilhéu açoriano, e morava na Rua da Vala, logo além da Rua do Cano (hoje Sete de Setembro) em pequena casa de duas portas e com sótão, a qual abria portão do quintal para a Rua dos Latoeiros.

João Fusco tinha consigo uma irmã, a Sra. Helena, ilhoa como ele, e que no Brasil enviuvara, ficando-lhe do casamento uma filha, a menina Águeda, então com 18 anos, carioca lindíssima, mas previamente condenada a casar com o tio já qüinquagenário, - homem de bem, mas genioso, desconfiado, ciumento e terrível como um turco.

Aproveitando a habilidade e prática da irmã e da sobrinha, que eram doceiras magistrais, João Fusco abrira na frente da casa loja de doces, espécie de confeitaria daquele tempo, e ali vendia excelentes biscoitos, bolos, amêndoas de castanhas de caju, balas e confeitos, e em vez de sorvetes, que somente setenta anos mais tarde se tornaram na cidade do Rio de Janeiro, o refrigerante e saboroso aloá.

Além de Helena e Águeda, João Fusco tinha em casa o caixeiro que o ajudava no serviço da loja, mas que era absolutamente privado de comunicação com a família, uma negra sexagenária escrava de Águeda, cuja ama-de-leite fora, e enfim um grande cão.

A mãe Jacoba (a escrava) e Degola (o cão) eram os guardas do quintal e do portão, do qual em todo o caso João Fusco à noite guardava a chave.

Helena e Águeda de dia trabalhavam na sala de jantar e na cozinha, e às oito horas da noite se recolhiam ao sótão, que constava de uma saleta na frente, e outra no fundo: a primeira era ocupada por Helena, a segunda pela menina. As janelas das saletas eram fechadas de cima a baixo por varões de ferro.

Águeda tinha em horror o tio, e a idéia de lhe pertencer como esposa fazia o tormento da sua vida; no entanto dissimulada e sonsa ela ria, e cantava de dia, e rezava muito de noite; mas Santo Antônio sabia o que a menina, sua devota, nas rezas e em promessas lhe pedia.

(continua...)

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