Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
O crioulo escravo e estimado, em quem o amor e as condescendências do senhor animam e atiçam expansões naturais do amplo gozo da liberdade, mistura nos dias da reflexão mais sombria e triste a lembrança dos sabores do reflexo da liberdade com a ameaça e os negros horrores da escravidão; habituado à impunidade garantida pela afeição, ousa muito e abusa ainda mais; como predileto da família, e escravo, portanto infeccionado de todos os vícios e ferozes impulsos da madre-fera escravidão, insolente e malcriado, nem perfeitamente livre, nem absolutamente escravo, bom juiz odiento, pois que conhece as duas condições, e da melhor é bastardo, e da pior legítimo filho, o crioulo escravo e estimado de seu senhor, torna-se em breve tempo ingrato e muitas vezes leva a ingratidão a perversidade, porque é escravo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. As vítimas-algozes. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1869. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 3 jan. 2026.