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#Epopeias#Literatura Brasileira

Feitos de Mem de Sá

Por José de Anchieta (1563)

bravateando contra eles terríveis matanças.

Chamava-se Cururupeba em sua língua materna,

nome que na nossa significa Sapo Espalmado.

Ao seu insensato orgulho e audaz arrogância

infligiu Mem de Sá digna paga, e assim começaram

a ter-lhe os brasis grande temor e respeito.

Já não ficarão impunes os crimes que há pouco

cometeste, ó Cururupeba, nem tua imensa soberba.

O braço valente dos cristãos lançou-te por terra

embora grande multidão dos teus te cercasse,

bem armados de flechas ligeiras, dispostos

a expor por teu amor a vida a todos os transes.

Mas a alma do grande herói firmada na força divina,

não obstante o receio da maior parte do vulgo,

resolve impor justo freio ao furor dos selvagens,

acalmar os vagalhões desse mar furioso.

Aos trinta homens que de cada aldeia escolhera

assim diz: “Ide e trazei-me preso esse louco

que tantas ameaças está contra nós vomitando.

Saiba ele enfim que não nos falta braço nem peito!”

Assim falou e eles partem em demanda das choças

enfumaçadas onde Cururupeba com a chusma dos índios

se aninha disposto a medir armas com armas.

Mas quem tudo pode abater com um aceno somente,

quem amansa as ondas do mar encapelado

e os ventos que as revolvem com sopros furiosos,

refreou-lhe a raiva e a inchada soberba

apertando-lhe o coração com gélido medo.

Firmes, os nossos não desistem, vão ter às cabanas,

cercam-nas, entram-nas e prendem a Cururupeba

no próprio esconderijo, e trazem-no preso p’ra fora;

tal o sapo escondido na cova, enchendo a pele e a bocarra,

parece ameaçar morte cruel com a baba empestada,

e mal do buraco o tiram com a mão, desaparecem

os sinais da raiva e deixa-se arrastar impotente.

Assim o prenderam indefeso, assim lhe amarraram

os punhos e lhe ataram os braços às costas,

e o conduziram vitoriosos ao governador em palácio.

E ele que há pouco lançava valentias aos ventos

e ameaçava feroz guerras, matanças e orgias,

vê-se agrilhoado duramente e jogado

na imundície horrível de um cárcere escuro,

pagando o merecido castigo de seus crimes antigos.

Não lhe desataram os grilhões, nem daí saiu livre

senão depois que a zona oblíqua dos signos

viu o sol percorrer a todos em seu rápido carro

e passada a do Peixe reviu a constelação do Carneiro,

transpondo os altos pórticos do firmamento estrelado.

Entretanto divulgou-se pelas aldeias a nova

de que esteva em ferros Cururupeba: terror indizível

se apodera dos índios. Pasmam todos e temem

cada qual pela própria sorte: como num bando de pombas,

quando cruel gavião arrebata uma nas garras aduncas,

as outras em debandada se escondem nos ninhos:

a imagem da companheira no desastre recente

continua a assustá-las e a entristecê-las ainda.

O piedoso Mem de Sá, desejou depois disto

ver adorado o Senhor do céu, do mar e da terra

e venerado nas plagas do Sul o nome de Cristo.

Resolve impor leis aos índios que vivem quais feras

e refrear seus bárbaros costumes. Logo desterra

a antropofagia cruel: não permite mais que movidos

de gula infrene bebam o sangue fraterno,

nem mais se violem os santos direitos da mãe natureza

e as leis do Criador. Para logo o ignóbil vulgacho

a quem movia ora ambição mal inspirada

ora verdadeiro terror, pôs-se a espalhar estes rumores:

“que novo governador é este? com que direito posterga

as leis antigas e tenta impor novos costumes

novas normas de vida a indômitas gentes?

Poderá ele agora persuadir a povos selvagens

tratados de aliança? deixará a raça brasílica

de comer carne humana, banindo do seio

de seus filhos ódios cruéis e guerras antigas?

Pois se o prazer destes bárbaros, justamente nisso consiste,

atirar-se sempre em novas e ferozes batalhas,

provocar os outros à guerra em que sempre viveram,

rasgar-lhes com as unhas a carne, e piores que tigres,

fincar os dentes em lanhos palpitantes de vida:

devem agora aprender a esquecer seus furores,

criar almas meigas e corações de cordeiro?

Acaso não voltará sobre nós o feroz inimigo

todas as iras e todos os braços devastando a cidade,

se faltarem outros em que saciem a sede de sangue?

Como é possível julgar que mudem agora

costumes que se embeberam na torrente dos séculos?

Poderão os beberrões deixar de encher-se de vinhos,

de vomitar o que beberam e de beber novamente

(continua...)

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