Por Padre Antônio Vieira (1670)
117. Se assim o fizerem os príncipes seculares, a quem também por seu modo não falta a assistência do Espírito Santo, esta será uma discreta política, com que livrem aos pretendentes do trabalho ou tentação de pedir, e a si mesmos das ocasiões de negar. A maior e mais dificultosa ocasião que tem havido neste gênero foi o provimento da sucessão de Davi. Queria Davi, e sabia, que era conveniente ao bem do reino que o seu sucessor fosse Salomão, e que assim o tinha Deus decretado. Contra isto estava ser Salomão ilegítimo e menor, e Adonias, seu competidor, não só legítimo; mas de todos os filhos de Davi, que então viviam, o primogênito, e como tal, assistido do séquito comum do Eclesiástico, e popular, e de grande parte da milícia. Era chegado o negócio a termos que, em um banquete, que naquele dia tinha dado Adonias a todos os príncipes e senhores da sua parcialidade, já se lhe faziam os brindes à saúde de el-rei. Teve notícia disto naquela mesma hora Davi, e que resolução tomaria? – Sele-se, diz, a minha mula – que eram os cavalos de que então usavam os reis – monte nela Salomão, e, ungido pelo profeta Natã, saia por Jerusalém com trombetas e atabales diante, e digam todos: Viva el-rei. – Assim se executou no mesmo ponto. Ouviu-se no banquete com assombro o som das trombetas, soube-se o que se passava, retiraram-se cheios de medo os convidados, e todos no mesmo dia beijaram a mão a Salomão. Mas que razão deu de si Davi, e do que tinha mandado? Como respondeu ao direito e pretensão de Adonias? E como enfeitou ou adoçou o não de o não ter nomeado a ele? Nenhuma coisa lhe disse, nem teve necessidade de lha dizer, porque, vendo Adonias o lugar provido, compôs-se com sua fortuna, foi beijar a mão a Salomão, e nem a ele, nem a seu pai replicou uma só palavra. Tanto importa o pronto provimento dos lugares, para pôr silêncio à ambição dos pretendentes e também ao não dos príncipes.
118. A praxe desta política exercitou gloriosamente no nosso reino el-rei Dom João, o Segundo, digno de ser chamado Dom João, o do Bom Memorial, assim como Dom João, o Primeiro, se chamou o de Boa Memória. Tinha este prudentíssimo rei um memorial secreto, no qual trazia apontados todos os que se avantajavam em seu serviço, ou fossem ministros do estado, ou da justiça; ou da fazenda, ou da guerra, e, segundo o merecimento de cada um, lhes tinha destinado os lugares e prêmios, assim como fossem vagando. Era provérbio dos hebreus, de que também usou Cristo: Ubicumque fuerit corpus, illic congregabuntur et aquilae (Lc. 17, 37): Onde houver corpo morto, logo ali correrão as águias. – Fala das águias vulturinas, que são aves de rapina, as quais têm agudíssima vista, e sutilíssimo olfato, e, em vendo ou cheirando corpo morto, logo correm a empolgar e cevar-se nele. Assim sucede com a ambição dos pretendentes a todos aqueles por cuja morte vaga ofício, comenda, vara, cadeira, mitra, governo, ou outro emolumento útil e pingue, em que empregar – não digo as unhas – as mãos. Mas que fazia nestes casos cotidianos o rei do bom memorial? Como nele tinha já destinadas as pessoas, a quem havia de fazer o provimento, respondia que já o lugar, ofício, ou benefício estava provido, e as águias, que corriam famintas aos despojos do morto, encolhiam as asas, embainhavam as unhas, e, ainda que queriam grasnar, tapavam o bico.
119. É o que aconteceu hoje aos nossos dois pretendentes. A razão com que Cristo lhes tapou a boca foi com dizer que aqueles lugares já estavam destinados e dados a outrem: Non vobis, sed quibus paratum esta Patre meo.17 Se vós soubéreis, que para se proverem os lugares do meu reino, não se espera que concorram os pretendentes a pedi-los, senão que muito antes disso estão já destinados, é certo que os não pretendereis nem pedireis; mas porque não sabeis este estilo do meu governo, por isso pedis, e não sabeis o que pedis: Nescitis quid petatis. No mesmo caminho em que se fez esta petição, acabava Cristo de dizer que ia a Jerusalém a morrer. João era a águia, e Diogo seu irmão, e, como lhe cheirou o corpo morto, também quiseram empolgar e aproveitar-se da ocasião; mas ainda que os lugares que pediam tivessem sido do morto, e ele fora como os outros mortos que morrem e não ressuscitam, nem por isso sabiam o que pediam, porque o segredo altíssimo de destinar os lugares antes que vaguem faz que, ainda que morram as pessoas, os ofícios sempre ficam e estão vivos. Imitem pois os príncipes aquela regra universal da natureza: Corruptio unius est generatio altenius.18 E assim como ela não permite que a matéria esteja sem forma, nem por um instante, assim eles tirem do mundo a vacância dos lugares, e não consintam que vaguem, ou estejam vagos um só momento, senão sempre providos e vivos.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.