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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

83. Só uma vos pode ocorrer que tenha alguma aparência, e é o que nos engana a todos. Padre, entre aquele contrato e as tentações ordinárias do demônio há uma diferença grande. Consentindo naquele contrato, ficava eu perdendo a minha alma de certo; consentindo nas outras tentações, somente ponho a minha alma em dúvida, porque, depois de aceitar a tentação e lograr o que o diabo ou o apetite me promete, posso arrepender-me, e salvar-me. Primeiramente essa mesma conta fizeram todos os cristãos que estão no inferno. Mas sem chegar a essa suposição, tão leve negócio é pôr a alma e a salvação em dúvida? Aprendamo-lo do mesmo demônio, e torne a tentação a ser remédio. Quando o diabo tentou a Cristo, bem via que aquele homem, quem quer que fosse, depois de aceitar o partido e se ficar com os reinos do mundo, assim como se houvesse posto de joelhos diante da demônio, para o adorar, assim se podia pôr de joelhos diante de Deus, para pedir perdão e se restituir à graça, e salvar-se. Pois se isto era assim, por que lhe oferecia o demônio todo o mundo, só por aquela adoração, só por aquele pecado? Porque aquele pecado em um homem, ainda que lhe não tirava a salvação com certeza, punha-lhe a salvação em dúvida, e só por pôr em dúvida a salvação de uma alma, dará e dá o demônio todo o mundo. Pois se a demônio, que não é interessado como eu, dá o mundo, só por pôr a minha salvação, em dúvida, eu por que porei em dúvida a minha alma e a minha salvação, ainda que seja por todo o mundo?

84. Cristãos, Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida, ainda que seja pelo preço de todo o mundo e de mil mundos. O que se põe em dúvida, pode ser e não pode ser. E se for? Se a dúvida inclinar para a pior parte, se eu me não salvar e me condenar, como se condenaram tantos que lhe fizeram esta mesma conta; será bem que fique a alma nestas contingências? Oh! tristes almas as nossas, que não sei que nas têm feito, que tanto mal lhes queremos! Por certo, que não nos havemos nós assim nas temporalidades. O negócio em que vos vai a vida, ou a fazenda, ou a honra, ou o gosto, contentais-vos com o deixar nessas dúvidas? Não buscais sempre a mais segura? Pois só a Deus e à ventura hão de ser para a triste alma? Vede como se queixava Cristo desta semrazão: Diviserunt sibi vestimenta mea, et super vestem meam miserirut sortem (Mt. 27,35): As minhas vestiduras exteriores, dividiram-nas para si, e a minha túnica interior, lançaram-na a sortes. – Os vestidos exteriores de Cristo, dividiram-nos entre si os soldados em partes iguais; a túnica interior, jogaram-na a ver quem a levava inteira. Que é esta túnica interior, e que vestiduras exteriores são estas que os homens receberam de Deus? As vestiduras exteriores são os bens temporais, a túnica interior é a alma. Vede agora com quanta razão se queixa Cristo: Diviserunt sibi vestimenta mea: as vestiduras exteriores, os bens temporais estimam-nos os homens tanto que os não querem pôr na dúvida de uma sorte: dividem-nos com grande tento, reparando em um fio, e cada um segura a sua parte; Et super vestem meam miserunt sortem: porém a túnica interior, a alma, fazem tão pouco caso dela os homens, que a lançam a sortes e à ventura, ao tombo de um dado. Atrevemo-nos a estar eternamente no inferno? Para quando guardamos os nossos juízos? Para quando guardamos os nossos entendimentos? Por que cuidais que foram prudentes as cinco virgens do Evangelho? Por que eram muito entendidas? Por que falavam com grande discrição? Não. Porque quando as companheiras lhes pediram do óleo para acompanhar o esposo às bodas, elas responderam: Ne forte non sufficiat nobis, et vobis (Mt. 24, 9): Não, amigas, porque não sabemos se nos bastará o que temos. – Pôr em dúvida a entrada do céu, pôr em dúvida a salvação da alma, nem por amor das amigas, nem por amor das bodas, nem por amor do esposo.

§VII

É tão grande o valor das almas por si mesmas, que mesmo quando condenadas, como a de Judas, deu Deus por bem empregado nelas o preço infinito de seu sangue. Que nos fizeram as nossas almas para lhes querermos tão mal? Tomemos meia hora por dia para tratar de nossa alma. Por que não haverá também uma irmandade para a salvação das almas que se perdem? Proposta de Cristo ao Reino de Portugal.

(continua...)

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