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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Suposto pois que o ditame é certo, conveniente e forçoso, desçamos à prática dele, sem a qual tudo o demais é nada. Isto de acabar a vida antes da morte, como se há de fazer? Respondo que fazendo resolutamente por própria eleição, na morte antecipada e voluntária, tudo aquilo que se faz prudente e cristãmente na morte forçosa e precisa. Que faz um cristão quando o avisam para morrer? Primeiramente (que isto deve ser o primeiro) confessa-se geralmente de toda sua vida, arrepende-se de seus pecados, compõe do melhor modo que pode suas dívidas, faz seu testamento, deixa sufrágios pela sua alma, põe-na inteiramente nas mãos do padre espiritual, abraça-se com um Cristo crucificado, e dizendo como ele: Consummatum est (Jo. 19,30), espera pela morte. Este é o mais feliz modo de morrer que se usa. Mas como é forçoso e não voluntário, e aqueles poucos e perturbados atos que então se fazem, não bastam para desfazer os maus hábitos da vida passada, assim como a contrição é pouco verdadeira e pouco firme, e as tentações então mais fortes, assim a morte é pouco segura e muito arriscada. A contrição, diz Santo Agostinho, na enfermidade é enferma, e na morte, diz o mesmo santo, temo muito que seja morta. Deixemos logo os pecados quando nós os deixamos, e não quando eles nos deixam a nós, e acabemos a vida quando ainda podemos viver; e não quando ela se tem acabado. Que damos a Deus, quando ele nola tira? Demos a vida a Deus, enquanto ele no-la dá; demos a Deus o tempo que sempre é seu, enquanto é também nosso, e não quando já não temos parte nele. Que propósitos são aqueles de não ofender mais a Deus, se eu já não tenho lugar de o ofender? A confissão nos tratos não é jurídica; há-se de ratificar fora dela para fazer fé; e pois se não pode ratificar depois, ratifique-se antes. A fazenda que se há de alijar ao mar no meio da tempestade, não é mais são conselho que fique no porto, e com ganância? Se eu posso ser o testador do meu, e mais o testamenteiro, por que o não serei? Se o meu testamento há de dizer: Item deixo, por que não dirá: Item levo? Não é melhor levar obras pias, que deixar demandas? Se se há de dizer de mim em dúvida: Fulano que Deus tem, não é melhor que seja desde logo, e com certeza?

§VII

E os negócios e gostos da vida? Só para os que acabaram a vida antes da morte o mundo é paraíso na terra, como para Henoc e Elias. De quantas sem-razões se livra quem está já morto! Quais são os que seguramente gozam de paz e descanso?

Para a outra vida ninguém haverá (se crê que há outra vida) que não tenha por bom este conselho, e que só ele no negócio de maior importância é o verdadeiro, o sólido, o seguro. Mas, que direinos ao amor deste mundo, a que tão pegados estamos? É possível que de um golpe hei de cortar por todos os gostos e interesses da vida? Aqueles meus pensamentos, aqueles meus desenhos, aquelas minhas esperanças, com tudo isto hei de acabar desde logo, e para sempre, e por minha vontade, e que hei de tomar a morte por minhas mãos, antes que ela me mate, e quando ainda pudera lograr do mundo e da mesma vida muitos anos? Sobretudo, tenho muitos negócios em aberto, muitas dependências, muitos embaraços: comporei primeiro minhas coisas, e depois que tiver acabado com elas, então tomarei esse conselho, e tratarei de acabar a vida antes da morte. Eis aqui o engano e a tentação com que o demônio nos vence depois de convencidos, e com que o inferno está cheio de bons propósitos.

Primeiramente estes vossos negócios e embaraços não devem de ser tão grandes, e de tanto peso, como os de Carlos Quinto; mas dado que o fossem, e ainda maiores, se no meio de todos eles, e neste mesmo dia viesse a febre maligna, que havíeis de fazer? Não havíeis de cortar por tudo, e tratar de vossa alma? Pois o que havia de fazer a febre, não o fará a razão? Se hoje tendes muitos embaraços, amanhã haveis de ter muitos mais, e ninguém se desembaraçou nunca desta meada senão cortando-a. E quanto aos anos que ainda podeis ter e lograr de vida, pergunte-se cada um a si mesmo quantos anos tem? Eu quantos anos tenho vivido? Sessenta. E quantos morreram de quarenta? Quantos anos tenho vivido? Quarenta. E quantos morreram de vinte? Quantos anos tenho vivido? Vinte. E quantos morreram de dez e de dois, e de um, e de nenhum? De utero translatus ad tumulum. E se eu tenho vivido mais que tantos, que injúria faço à minha vida em a querer acabar? Que injúria faço aos meus anos em renunciar aos poucos e duvidosos, pelos seguros e eternos?

Finalmente, se tanto amo, e tão pegado estou aos dias da vida presente, por isso mesmo os devo dar a Deus, para que ele me não tire os que ainda naturalmente posso viver, segundo aquela regra geral da providência sua, e aquele justo castigo dos que os gastam mal: Viri sanguinum, et dolosi, non dimidiabunt dies suos.2

(continua...)

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