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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

A BRAZIA DO CALVARIO OUTRA MULATA MERETRIZ DE QUEM TAMBEM
FALLAREMOS, QUE ESTANDO EM ACTO VENEREO COM HUM FRADE
FRANCISCANO, LHE DEO UM ACIDENTE A QUE CHAMÃO VULGARMENTE
LUNDUZ, DE QUE O BOM FRADE NÃO FEZ CASO, MAS ANTES FOY
CONTINUANDO NO MESMO EXERCICIO SEM DESENCAVAR, E SOMENTE O FEZ,
QUANDO SENTIO O GRANDE ESTRONDO, QUE O VAZO LHE FAZIA.

1 Brásia: que brabo desar!
vós me cortastes o embigo,
mas inda que vosso amigo,
não vos hei de perdoar:
pusestes-vos a cascar,
e invocastes os Lundus;
Jesus, nome deJesus!
quem vos meteu no miolo,
que se enfeitiçava um tolo
mais que co jogo dos cus?

2 O Fradinho Franciscano
sendo um servo de Jesus,
que Ihe dava dos Lundus,
se é mais que os Lundus magano?
tinha ele limpado o cano
quatro vezes da bisarma,
e como nunca desarma
tão robusta artilharia,
dos lundus que Ihe daria,
se ele estava co'aquela arma?

3 Chegados os tais lundus
os viu no vosso acidente,
que se os vê visivelmente
também Ihe dera o seu truz:
desamarrados os cus,
porque o Frade desentese,
foi-se ele, pese a quem pese,
e vós assombrada toda,
perdestes a quinta foda,
e talvez que fossem treze.

4 O melhor deste desar
é, que o Padre, que fodia,
quando o jogo Ihe acudia,
vos tocava o alvorar:
vos enforcando no ar
esse como a balravento,
então o Frade violento
entrava como um cavalo,
e o cono com tanto abalo
zurrava como um jumento.

5 Eu não vi cousa mais vã,
do que o vosso cono bento,
pois com dous dedos de vento
roncava uma Itapoã,
estava agora louçã,
crendo, que salva seria
toda aquela artilharia,
mas vós o desenganastes,
quando o murrão Ihe apagastes
com chuva, e com ventania.

6 Se achais, que vos aniquilo,
porque mais pede inda o caso,
digo, que há no vosso vaso
as catadupas do Nilo:
e se o vaso vos perfilo
com rio tão hediondo;
crede, que o Nilo redondo
com todas as sete bocas
tem ruído, e vozes poucas
à vista do vosso estrondo.

7 Ninguém se espanta, que vós
venteis com tal trovoada,
porque de mui galicada
tendes no vaso comboz:
é caso aqui entre nós,
que se o membro é uma viga,
em tocando na barriga
uma enche, e outra extravasa,
e vaso, que enche, e vaza,
como de marés se diga.

8 Tantas faltas padeceis
fora do vaso, e no centro,
que nada ganhais por dentro,
por fora tudo perdeis:
já por isso recorreis
ao demo, a quem vos eu dou,
e tanto vos enganou,
que o Frade o demo sentindo,
dele, (e de vós) foi fugindo,
e co demo vos deixou.

9 O demo, que é mui manhoso,
veio então a conjurar-vos,
que à força de espeidorrar-vos
veja o mundo um Frei Potroso:
coitado do religioso
corria com reverência,
nos culhões tendo esquinência
de vossa ventosidade,
mas se a casta tira o Frade,
sei, que há de ter paciência.

A HUMA DAMA QUE POR UM VIDRO DE ÁGUA TIRAVA O SOL DA CABEÇA.

1 Qual encontra na luz pura
a Mariposa desmaios,
tal de Clóri sente a raios
assaltos a formosura:
remédio a seu mal procura,
mas com ser a doença clara,
já eu Iha dificultara,
temendo em tanto arrebol,
que tirar da testa o sol,
lhe custa os olhos da cara.

2 Posto que o sol não resista,
temo, que ali não faleça,
porque se ofende a cabeça,
nunca desalenta a vista:
nesta pois de ardor conquista
vejo a Clóri perigar,
pois querendo porfiar,
das duas uma há de ser,
ou não há de ao sol vencer,
ou sem vista há de ficar.

3 Mas Clóri assim achacada
que está, é cousa sabida,
menos do sol ofendida,
que da lua perturbada:
que esteja Clóri aluada,
é inferência comua,
pois se ao sol da fonte sua
perturbam nuvens de ardores,
quando ao sol sobem vapores,
é nas mudanças da lua.

4 Se Clóri se persuadira,
que só da lua enfermara,
da cabeça não curara,
mas aos pés logo acudira:
se o calor porém Ihe inspira,
que o seu mal todo é calor,
pois o maior ao menor
por razão deve prostrar,
para as do sol sepultar,
procure as chamas do amor.

5 Mas se as do fogo não quer,
bem se val das armas d'água,
que só pode em tanta frágua
tanto vidro alívio ser:
nele o mal remédio ter,
o mesmo sol o assegura,
que se nas águas procura
em seus ardores abrigo,
quem tem em cristal jazigo,
acha em vidros sepultura.

HUMA FORMOSA MULATA, A QUEM HUM SARGENTO SEU AMASIO ARROJOU AOS
VALADOS DE HUMA HORTA.

(continua...)

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