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#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Do grande patriarca e pai de todos os patriarcas, Elias, tomou Santo Inácio o zelo da honra de Deus. Ambos tinham espada de fogo; mas o fogo de Elias queimava, o fogo de Inácio acendia; o fogo de Elias abrasava, o fogo de Inácio derretia: Ambos, como dois raios artificiais, subiam direitos ao céu; mas o de Elias acabava em estrondo, o de Inácio em lágrimas. De S. Paulo, primeiro pai dos eremitas, tomou Santo Inácio a contemplação; mas Paulo no deserto para si, Inácio no povoado para todos. Ambos elegeram o meio mais alto e mais divino, mas com diferentes fins: Paulo para evitar a perseguição de Décio; Inácio para resistir aos Décios e às perseguições. Paulo recolheu-se ao sagrado da contemplação, para escapar à tirania, Inácio armou-se do peito forte da contemplação, para debelar os tiranos. Do patriarca e doutor máximo, S. Jerônimo, tomou Santo Inácio a assistência inseparável da Sede Apostólica no serviço universal da Igreja. S. Jerônimo era a mão direita da Igreja, com que os pontífices escreviam; Santo Inácio é o braço direito da Igreja, com que os pontífices se defendem. Assim o disse o Papa Clemente VIII à Companhia: Vos estis brachium dextrun Ecclesiae Dei: Vós sois o braço direito da Igreja de Deus. Do único sol da Igreja, Santo Agostinho, porque os raios do entendimento não eram imitáveis, tomou Inácio as labaredas do coração. O amor de Agostinho chegou a dizer que se ele fora Deus, deixara de o ser para que Deus o fosse; Inácio, com suposição menos impossível, dizia que entre a certeza e a dúvida de ver a Deus, escolheria a dúvida de o ver pela certeza de o servir. Do patriarca, pai de tantos patriarcas, S. Bento, estendendo o Monte Cassino por todo o mundo, tomou Santo Inácio as escolas e a criação dos moços. Para quê? Para que na prensa das letras se lhes imprimam os bons costumes, e estudando as humanas aprendam a ser homens. O senhor arcebispo último de Lisboa, tão grande português como prelado, e tão grande prelado como douto, dizia que todos os homens grandes que teve Portugal no século passado, saíram do pátio de Santo Antão. Agora o não freqüentam tanto seus netos; depois veremos se são tão grandes como seus avós. Do patriarca S. Bruno, aquele horror sagrado pela natureza, que tomaria Santo Inácio? Tomou o perpétuo cilício. Não o cuida assim o mundo, mas sabem-no as enfermarias e as sepulturas. O cilício que anda entre o corpo e o linho, não é o que mais pica: o que cega o entendimento e nega a vontade, este é o que afoga a alma e tira a vida. Os outros cilícios mortificam, este mata. Do patriarca S. Bernardo, anjo em carne, e por isso irmão de leite de Cristo, tomou Santo Inácio a angélica pureza. Em ambos foi favor especial da Mãe de Deus, mas em Santo Inácio tão singular, que desde o dia de sua conversão, nunca mais, nem no corpo, nem na alma, sentiu pensamento contrário. E sendo os maiores inimigos da castidade os olhos, naqueles em quem punha os olhos Santo Inácio infundia castidade. Dos gloriosos patriarcas 5. João e S. Félix, a cuja religião deu o seu nome a mesma Trindade, tomou Santo Inácio o ofício de redentor. E porque a esta trindade humana faltava a terceira pessoa, quis ele ser a terceira. Desta maneira, permiti-me que o explique assim, o Redentor do gênero humano, que tinha só uma subsistência divina, ficou como subsistindo em três subsistências humanas: redentor em João, redentor em Félix, e redentor em Inácio; mas naqueles imediatamente redentor dos corpos; neste imediatamente redentor das almas. Do ilustríssimo patriarca S. Domingos, a quem com razão podemos chamar o grande pai das luzes, tomou Santo Inácio a devoção da Rainha dos anjos, e a doutrina do Doutor Angélico. A primeira devoção que fazia Santo Inácio todos os dias era rezar o Rosário, e o farol que quis seguissem na teologia as bandeiras da sua Companhia, foi a doutrina de Santo Tomás. Mas concordou Santo Inácio essa mesma doutrina e essa mesma devoção com tal preferência, que no caso em que uma se encontrasse com a outra, a devoção da Senhora prevalecesse à doutrina, e não a doutrina à devoção. Assim se começou a praticar nas primeiras conclusões públicas que em Roma defendeu a Companhia, e depois sustentou com tantos livros. Do serafim dos patriarcas, S. Francisco, tomou Santo Inácio, por dentro, as chagas, por fora, a pobreza. E estimou tanto Inácio a estreiteza da pobreza seráfica que atou a pobreza com um voto, e a estreiteza com outro. Fazemos um voto de guardar a pobreza, e outro voto de a estreitar. Aos professos mandou Santo Inácio que pedissem esmola; aos não professos, que lhes desse a esmola a religião, para que a não fossem buscar fora dela. Por isso têm rendas os colégios e não as casas. Do patriarca S. Caitano, ilustre glória do estado clerical e quase contemporâneo de Santo Inácio, ainda que em algumas partes da Europa quiseram honrar com o mesmo nome a seus filhos, não tomou Santo Inácio o nome, porque o tinha dado a Jesus. O que tomou deste apostólico instituto foi a divina providência, e porque não fosse menos providência, nem menos divina, não só a tomou entre a caridade dos fiéis, senão entre a barbaria dos gentios. Finalmente, do nosso insigne português, S. João de Deus, tomou Santo Inácio a caridade pública dos próximos. Ambos se uniram na caridade, e a caridade se dividiu em ambos. Tomaram ambos por empresa o remédio do gênero humano enfermo. João de uma parte, curando o corpo, Inácio de outra parte, curando a alma; João, com o nome de Deus que formou o barro; Inácio com o nome de Jesus, que reformou o espírito. Não falo naquele grande prodígio da nossa idade, a Santa Madre Teresa de Jesus, porque veio ao mundo depois de Santo Inácio. Mas assim como Deus, para dar semelhante a Adão, do lado do mesmo Adão formou a Eva, assim para dar semelhante a Santo Inácio, do lado do mesmo Santo Inácio formou a Santa Teresa. O texto desta gloriosa verdade é a mesma santa. Assim o deixou escrito de sua própria mão, afirmando que do espírito de Santo Inácio, formou parte do seu espírito, e do instituto de Santo Inácio, parte do seu Instituto.23 E este foi o modo maravilhoso com que o patriarca Santo Inácio veio a sair semelhante sem semelhante. Semelhante, porque tomou os gêneros; sem semelhante, porque acrescentou as diferenças. Semelhante, porque imitou a semelhança de cada um; sem semelhante, porque uniu em si as semelhanças de todos. Et vos similes hominibus.

§VI

Protesta o autor que as diferenças que ponderou entre Santo Inácio e os outros fundadores, posto que pareçam vantagens, não são mais que semelhanças. Santo Inácio, como Moisés, se não excedera a glória dos outros patriarcas, fora menor, porque veio depois. Como diz S. Paulo, o Verbo, para mostrar a igualdade que tem com o Pai, tornou-se dessemelhante fazendo-se homem, a fim de que no excesso ficasse proporcionada a igualdade, e na diferença a semelhança.

(continua...)

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