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#Sermões#Retórica

Sermão da Sexagésima

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Mas que diremos à oração de Moisés: Concresat ut pluvia doctrina meo; fluat ut ros elo quium meum (Dt. 32,2)? Desça minha doutrina como chuva da céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho, que se destila brandamente e sem ruído? Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado par Isaias: Non clamabit neque oudietur vox ejusforis (Is. 42,2): Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada, que se não possa ouvir fora? E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra, e se mete na alma.

Em conclusão, que a cousa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat, nem a do estilo: Seminare, nem a da matéria: Semen, nem a da ciência: Suum, nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz. Amós tinha grosseiro estilo, Salomão multiplicava e variava os assuntos, Balaão não tinha exemplo de vida, o seu animal não tinha ciência, e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam22. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a cousa principal, nem bastante, do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira cousa?

§IX

A verdadeira razão: as palavras dos pregadores são palavras de Deus, mas não são a palavra de Deus. As Escrituras, quando não tomadas em seu verdadeiro sentido, podem transformar-se em palavras do demônio, como no caso da tentação de Cristo. Analogia entre o pináculo do Templo e o púlpito. Os pregadores e as duas falsas testemunhas do julgamento de Cristo. Admoestação de S. Paulo. Excelência dos comediógrafos pagãos sobre os maus pregadores.

As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis, cristãos, a cousa, por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus, como dizia, é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavra de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos de palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent (Os. 8,7), diz o Espírito Santo: Quem semeia ventos, colhe tempestades. Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher frutos?

Mas, dir-me-eis: padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus. Qui habet sennonem meum, loquatur serutonem meus23 disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavra de Deus, mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavra do demônio. Tentou o demônio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo quod procedit de Dei24. Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronômio. Vendo o demônio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-o ao templo, e alegando o lugar do salmo novento diz-lhe desta maneira: Mitte de aeorsum; scriptum est enim quia Angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis (SI. 90,11): Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal. De sorte que Cristo defendeu-se do diabo com a Escritura, e o diabo tentou a Cristo com a Escritura Todas as Escrituras são palavra de Deus; pois se Cristo toma a Escritura para se defender do diabo, como toma o diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido. E as mesmas palavras que, tomadas em verdadeiro sentido, são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do diabo. As mesmas palavras, que tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então o diabo quis derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo. O pináculo do Templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-o no monte, tentou-o no Templo; no deserto tentou-o com a gula, no monte tentou-o com a ambição, no Templo tentou-o com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua fé.

(continua...)

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