Por Machado de Assis (1872)
Os ministros quiseram responder; mas era impossível. Só havia atenção para o vulto impudente do nosso Rui, que, sendo cumprimentado por grande número de senhores deputados, recebeu no dia seguinte convite para um jantar que lhe deu a Câmara, sem distinção de partidos.
- Que discurso! - dizia um.
- Um monumento!
- É Mirabeau!
- É Cícero!
- Nunca ouvimos tal...
- É o Demóstenes moderno.
- Está fundada a eloquência brasileira.
Tais eram as conversações do povo e da Câmara acerca do discurso de Rui de Leão.
Ainda no jantar que lhe deram, o ilustre orador teve ocasião de assombrar a todos com um soberbíssimo speech, no qual, aludindo à circunstância de estarem ali amigos e adversários, proferiu esta frase tão imortal como o autor: "Estou aqui como os mortos no cemitério: a terra e o jantar nivelam as condições e as opiniões: o estômago é eclético."
Seria longo enumerar os prodígios de eloquência do nosso Rui e dizer que serviços importantes prestou ele à causa do partido. Bastará mencionar que dentro de pouco foi ele constituído chefe do partido e aclamado o primeiro homem do parlamento.
Mas cedo se aborreceu da posição e da vida política. Tendo concluído a legislatura, o nosso homem declarou que se retirava à vida privada.
Gastaram-se muitas ferraduras e pedras das ruas em visitas à casa de Rui, a fim de ver se alcançaria que ele desistisse do intento. Impossível.
Rui persistiu na intenção de deixar a vida pública.
- Mas nós!...
- Não desisto do meu plano.
- Por quem é...
- Impossível.
Retirou-se para o Norte, e lá se escondeu arrastando uma vida que lhe era odiosa.
Um belo dia cai a notícia de que rompera a guerra com o ditador López.
Rui alistou-se como capitão de voluntários e partiu para o Sul. Fez proezas incríveis, colocou-se à frente das balas, queria a morte a todo custo. Impossível.
A morte respeitava-o. Um dia, saindo fora do acampamento, encontrou um oficial paraguaio.
- Senhor - disse ele -, sou inimigo: mate-me.
O paraguaio disparou-lhe um tiro, que lhe não fez mal nenhum. Acudiu a companhia de Rui e o trouxe para o acampamento.
Desesperado, voltou o homem à Corte e aqui ficou, até que se deu o acontecimento que vou resumir e com o qual se conclui a história.
Travou Rui conhecimento com um médico homeopata, Álvares Melo; era excelente conhecedor da ciência e Rui gostava de conversar sobre medicina.
Um dia conversando em casa de Bernardes disse Rui ao Doutor Álvares:
- Nunca pude compreender o principio homeopático.
- Por quê?
- Acho ele contraditório.
- Não é - disse Álvares -; os maiores luminares da alopatia escreveram máximas que apoiam o principio homeopático.
- Acho isso um sofisma.
- Não é, e vai ver.
Álvares entrou a explicar detidamente o sistema homeopático ao amigo; acumulou exemplos; raciocinou com calma e ciência, pois era homem que sabia o que dizia.
Rui ficou um tanto abalado.
Foi para casa e estudou o sistema homeopático com o afinco que lhe era peculiar, sempre que queria saber profundamente uma cousa.
Dentro de pouco estava convencido.
Mas então que disse ele?
- Tupã! És tudo; mas erraste. Fizeste-me imortal; mas deste ao mundo a homeopatia. Venço-te com as tuas armas.
Similia similibus curantur; estás vencido.
Bebeu o resto do elixir do pajé.
No dia seguinte morreu.
Assim acabou este grande homem, após quase três séculos de existência, tendo colhido louros na guerra, na ciência e no parlamento; feliz no jogo e nos amores; mimoso da fortuna; homem, enfim, que provou praticamente que a morte, longe de ser um mal, é um corretivo necessário aos aborrecimentos da vida.
Imitemo-lo nas façanhas e no amor ao estudo; não no desejo de ser imortal; e convençamo-nos de que o melhor elixir de imortalidade não vale os sete palmos de terra do Caju.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Rui de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, jan./mar. 1872.