Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

A imprensa inglesa tem sido cruel para o marechal: debaixo das formas solenes do artigo de fundo inglês, conservadores e liberais dão claramente a entender que o marechal provou não ter nenhuma inteligência e ter muito pouca dignidade. O Economist, há dias, dizia que. «falando verdade o marechal não era inteiramente estúpido»... E esta é a concessão mais lisonjeira que lhe tem sido feita. O marechal, por aquele acto, de que tomou perante a França a responsabilidade exclusiva, preparou a sua queda. De facto, que ele obtenha do Senado a dissolução da câmara, ou que a câmara se dissolva por iniciativa da maioria – em definitivo, quem tem de dizer a última palavras é o país.

O conflito hoje é entre o marechal e o mundo conservador, devoto e aristocrático que ele representa – e a república. A França tem de decidir. Ora se a França, nas últimas eleições, decidiu pela república, porque não há-de agora decidir pela república igualmente? Se alguma mudança houve, foi para maior consolidação do espírito republicano: a república mostrou-se moderada, trabalhadora, iniciadora; sob o seu regi-me a França recuperou-se, pagou, reorganizou-se; o país acostumou-se a ela; o homem do campo, que sempre lhe foi hostil, élhe agora dedicado, vendo a forte riqueza que ela estava criando à França; as classes burguesas aderiram-se a ela, e a França fez-se uma alma republicana. E claro portanto que, sejam quais forem as pressões ministeriais, as eleições novas decidirão pela república contra o marechal. Isto é, mandarão àcâmara uma maioria republicana e radical. Dará um xeque ao marechal. E só resta a Mac Mahon demitir-se ou dar um golpe de estado, destruindo a constituição e a república. Um golpe de estado em favor de quem? Em seu favor? Mac Mahon não é da massa de que se fazem os reis e os imperadores. Em favor do conde de Chambord? Mas ele mesmo disse – que no dia em que o conde de Chambord viesse com a sua bandeira branca os chassepots se disparariam por si mesmo. Em favor do filho de Napoleão? Mas podia o marechal contar com o exército para um golpe de estado bonapartista? Não.

Depois da guerra, se parte do exército é ainda, por um resto de hábito e de tradição, bonapartista, a maior parte, a melhor, a mais instruída, a mais moça, é republicana, e tentar uma restauração imperial seria inaugurar a guerra civil. Que lhe restará então senão retirar-se? E a maioria radical da nova câmara poderá então escolher Gambetta.

O marechal, julgando arrancar a França aos radicais, está simplesmente preparando o meio de lha entregar legalmente. En attendant, o primeiro resultado deste acto extraordinário é excitar a desconfiança de todos os governos europeus: cada um vê no novo ministério de Broglie um perigo clerical: a Espanha vê o apoio dado às tentativas carlistas; a Itália vê a organização de uma cruzada a favor do papa; a Alemanha vê a possibilidade de uma guerra de desforra num interesse dinástico. Aversão dentro, desconfiança fora – aí está o que inspira o ministério da reacção.

Bons auspícios para começar um governo!

Graves notícias industriais do Norte da Inglaterra. No condado de Northumberland, quinze mil mineiros de carvão declararam-se em greve. Os patrões, em presença da depressão comercial e da estagnação geral das indústrias, vendo que com os salários actuais não poderiam continuar a exploração das minas sem perda, propuseram uma redução de dez por cento no salário dos homens. A proposta foi recusada e – o que é pior e contra a tradição e o costume estabelecido – recusaram-se a sujeitar a disputa ao tribunal de arbitragem. Isto é novo e mostra da parte dos operários um sentimento de hostilidade e de azedume que se não esperava. A greve portanto declarou-se no dia 28. Quinze mil homens em greve representa neste distrito cinquenta mil pessoas sem pão. Os últimos anos têm sido maus, e decerto não têm permitido aos operários fazer economias para esta contingência; por outro lado, os cofres das Uniões estão empobrecidos; os mineiros dos outros distritos carvoeiros, escasso auxílio podem mandar aos seus companheiros de Northumberland; e, se esta greve se demorar, portanto os sofrimentos serão terríveis. Todas as indústrias param com esta resolução fatal: de facto todas dependem do carvão, e esgotada que seja a reserva têm de cessar, de modo que a greve de uma classe produz a falta de trabalho a todas as outras, e são alguns centos de mil pessoas que vão ficar na necessidade e na desconsolação.

Não há novidades literárias – a não ser a usual publicação de novelas. A novela tomou-se em Inglaterra um género de comércio – como o chá ou como o tabaco. Lê-se uma novela como se fuma, ou como se bebe uma chávena de chá; centenares de sujeitos, e sobretudo de senhoras, empregam-se na confecção deste produto. O assunto é sempre o mesmo: os embaraços que dois namorados novos, religiosos, patriotas e moralistas encontram na sua união – e por fim resultado feliz pelo casamento ou fatal pela morte. Esta acção passa-se ordinariamente em Inglaterra no primeiro volume, em

Veneza ou em Florença ou em Paris no segundo, e o terceiro é originariamente dedicado à pintura da vida do campo. O estilo é ordinariamente de um tom corredio e monótono como um fio de água morna que sai de uma torneira. Há sempre nestes trabalhos uma grande pretensão à observação e um abuso considerável de frases francesas. Publica-se disto às dúzias por semana.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...910111213...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →