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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Procurava a rima, já interessado, quando um sujeito baixote e bochechudo, de bonet escocez, appareceu na grade da estação, com uma chapeleira de papelão azul, a galhofar com duas raparigas que o seguiam, offerecendo ovos molles ou mexilhões para elle levar para Lisboa.

— A ti é que eu te levava, Mariquinhas ; queres tu vir ?

—fi já, snr. Joãozinho Vou buscar o snr. Padre Mendes, que nos casa aqui mesmo.

Mas o sujeito bochechudo avistou o rapaz magro, de paletot côr de pinhão, e exclamou :

Olá, sô Arthur ! Então tambem se vae até

Lisboa

O snr. Arthur sorriu :

Quem déra ! Não ; vim apenas esperar meu padrinho que vae de passagem para lá.

O outro puxon as calças para a cinta e disse, rindo :

— Homem essa! E vem o amigo d'Oliveira d'Azemeis aqui, para vêr passar seu padrinho no comboio ? . . .

— Então Para lhe apertar a mão, desejar-lhe boa viagem

— Diabo ! — disse o outro. — Já é ser bom afilhado ! . . . Eu não o fazia nem por meu pae. Pousou a chapeleira, petiscou lume e tirando uma fu maça do cigarro, continuou com satisfação : — Pois eu vou-me até á capital I Desenferrujar Se quizer alguma cousa — Que se divirta !

-— Fica por minha conta ! Ha-de-se encher este ventrezinho ! E então que vamos ter um rico ili verno em Lisboa I Sassi em S. Carlos, cancanistas francezas no Casino . . . Naturalmente fornada nova d'hespanholas . . . Não lhe digo mais nada . . .

Deu outro puxão ás calças e foi collocar com prudencia a chapeleira de papelão ao lado d'um gacco de tapete. Arthur seguia-lhe o dorso grosso, curvado sobre a bagagem, os quadris d'obeso sobre que estalava uma calça côr d'avelã ; e pensava com desconsolo, que era aque112 creatura endinheirada que ia para Lisboa, o Joãozinho Mendes, d'Ovar, a quem chamavam em Coimbra o Chouriço e era incapaz de comprehender um livro ou mesmo um dito ! E lembrava a noite em que o Taveira, no Carneiro, muito bebado, improvisava injurias ricas ao Joãozinho Mendes :

Lá na eterna Salgadeira,

Ensacando d'uma vez,

Dentro da tripa da Asneira,

Um naco gordo e roliço

Do lombo da Estupidez,

Fez-nos Deus este Chouriço t

O Taveira, com todo o seu genio, era um advogado pobre no fundo de Traz-os-Montes e o Chouriço, proprietario, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer . . . Aquelle bochechudo em Lisboa parecia-lhe semelhante a um lagarto de couve pousado sobre o mel d'um calice de madre-silva ; e esta comparação subtil, que o Chouriço nunca poderia ter inventado, consolou-o durante um momento da diversidade amarga da fortuna . . .

Mas um silvo penetrante de locomotiva cortou o ar calado e immediatamente o comboio appare. ceu, deslisando sobre os raits, dardejando ao alto jactos direitos de fumo branco.

— Pois eu, disse o Chouriço, aproximando-se com jubilo, emquanto o comboio parava — estendo-me agora ao comprido e levo a noite d'uma somneca até Lisboa. Sei-a toda, hein E ámanhã estas horas, na pandega ! Vem pouca gente Caramba, bonita pequena !

Era uma senhora, com um vestido de xadrez, que se debruçára á portinhola d'um wagon de primeira classe ; tinha um livro fechado na mão e o seu chapéu pequenino, feito de pennas, parecia o peito roliço d'uma ave negra.

Arthur seguiu ao longo do comboio, procurando o padrinho : não o encontrou. Quiz interrogar o conductor que ao fundo verificava uma descarga de caixotes. Mas o homem não o attendeu, atarantado, de bonet para a nuca, os olhos esgazeados : em volta d'elle, um guarda, o chefe da estação com as mãos atulhadas de papeis, o cocheiro do char-à-bancs da Villa, vociferavam e bracejavam, tão aturdidos em torno dos quatro caixotes, como se os surprehendesse a accumulação inesperada de todas as mercadorias do Universo. Por traz da grade fechada da estagio, as raparigas vozeavam tambem, offerecendo mexilhões e ovos molles d'Aveiro. Arthur, desconsolado, voltou ainda a olhar pelas portinholas até á terceira classe, onde soldados que conduziam um desertor beberricavam d'uma garrafa.

Ahi, o rapaz do campo accommodava devagar, debaixo do assento, o seu sacco de chita e o farnel ; passou depois o lenço pela testa como para limpar o suor, e, muito pallido, com os beiços a tremer :

— Adeus, mãe ! — disse.

A velha abraçou-se-lhe dezesperadamente ao pescoço :

— Meu filho ! meu rico filho, que não te torno a vêr ! Oh I meu filho, oh I Senhor ! que não o torno a vêr I

— Adeus, mãe ! Adeus, Joaquina ! Tem de ser, tem de ser!

Beijou violentamente a velha na face, apertou nos braços a rapariga, saltou para o wagon e ficou com a cabeça enterrada nos punhos, aos soluços.



(continua...)

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