Por Eça de Queirós (1900)
- Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem, aos sessenta anos,ser deputado, passar meses em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquela linda quinta... E para quê? Para rosnar de vez em quando "apoiado"! Antes ele me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim amanhã que me tenha a égua pronta. a esta hora, para eu ir à Feitosa visitar esse animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de Lisboa, com as polainas altas... Há mais de dois anos que não vejo a D. Ana Lucena. É uma linda mulher!
- Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa eles passaram aí, na caleche. Até pararam, e o Sr.Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar à senhora... Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta, com um grande cabo. e um grande grilhão, tudo de ouro...
- Bravo!... Encharca bem esse lenço com água-de-colônia, que tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Ana era uma jornaleira, urna moça do campo, de Corinde?
Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:
- Não senhor! A Sra. D. Ana Lucena é de gente muito baixa! Filha dum carniceiro de Ovar... E oirmão andou a monte por ter morto o ferrador de Ilhavo.
- Enfim - resumiu Gonçalo-, filha de carniceiro, irmão a monte, bela mulher, luneta de ouro...Merece fato novo!
Em Vila-Clara, às dez horas, sentado num dos bancos de pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o amigo João Gouveia - que era o Administrador do Concelho da Vila. Ambos se abanavam com os chapéus, em silêncio, gozando a frescura e o sussurro da água lenta na sombra. E a "meia" batia no relógio da Câmara, quando Gonçalo, que se retardara na Assembléia num voltarete enremissado, apareceu anunciando uma fome terrível, "a fome histórica dos Ramires", e apressando a marcha para o Gago - sem mesmo consentir que o Titó descesse à tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de cana da Madeira, velha e "da ponta fina..."
- Não há tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro um de vocês, com esta furiosa fomeRamírica!
Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou ele cruzando os braços, interpelando divertidamente o Sr. Administrador do Concelho pelo estupendo feito do seu Governo... então o seu Governo, os seus amigos Históricos, o seu honradíssimo S. Fulgêncio - nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antônio Moreno! O Antônio Moreno, tão justamente chamado em Coimbra, Antoninha Morena! Não, realmente, era a derradeira degradação a que podia rolar um país! Depois desta, para harmonia perfeita dos serviços, só outra nomeação, e urgente - a da Joana Salgadeira, Procuradora-Geral da Coroa!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito seco, de bigode mais duro que piaçava, esticado numa sobrecasaca curta, com o chapéu-de-coco atirado para a orelha, não discordava. Empregado imparcial, servindo os Históricos corno servira os Regeneradores, sempre acolhia com imparcial ironia as nomeações de bacharéis novos, Históricos ou Regeneradores, para os gordos lugares Administrativos. Mas, neste caso, sinceramente, quase vomitara, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o Antônio Moreno, que ele tantas vezes encontrara no quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a carinha bonita coberta de pó-de-arroz!... - E, travando do braço do Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão, muito bêbedo, de cartola e com um revólver, exigia furiosamente que o Padre Justino, também bêbedo, o casasse com o Antoninho diante de um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas o Titó, que esperava, floreando o bengalão, declarou àqueles senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a conversar de Política e de indecências - então voltava ele ao Brito, buscar a aguardentezinha... Imediatamente o Fidalgo da Torre, sempre brincalhão, sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela Calçadinha, aos corcovos, com as mãos fortemente juntas, como colhendo uma rédea, contendo um cavalo que se desboca.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.