Por Camilo Castelo Branco (1889)
Vasco cansara-se de mim. A consciência afirmou-me esta verdade atroz. Sufoquei a indignação, as lágrimas e os gemidos. Sofri sem limites. Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas veias. Não houve nunca mulher assim desgraçada !
E vivemos assim dezoito meses. A palavra “casamento” foi banida de nossas curtas conversações… Vasco desquitava-se de compromissos, que ele chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu escravo, como ele intitulava o néscio que se deixava algemar às obscuras superstições do sétimo sacramento… Foi aí que Vasco de Seabra encontrou a Sofia que te apresentei no Real Teatro de S. João, na primeira ordem.
Comecei então a pensar em minha mãe, em meu irmão, na minha honra, na minha infância, na memória deslustrada de meu pai, na tranquilidade de minha vida até ao momento em que me atirei à lama e salpiquei com ela a face da minha família.
Peguei na pena para escrever a minha mãe. Escrevera a primeira palavra, quando compreendi o vexame, a desgradação e a vilania com que ousava apresentar-me àquela virtuosa senhora, com a face manchada de nódoas, contagiosas. Repeli com nobreza esta tentação, e desejei, naquele instante, que minha mãe me julgasse morta.
Em Londres vivíamos numa hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a meu irmão. Viera aí hospedar-se uma família portuguesa. Era o visconde do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tratando-me como irmã de Vasco.
Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na história desta gente, que já conheceste no camarote da segunda ordem.
Mas não posso agora dispor de mim… Saberás, alguma vez, a razão por que não pude continuar esta carta.
Adeus, até outro dia.
Henriqueta.”
CAPÍTULO VII
“Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrifício que faço. Não importa. Como não quero cativar a tua gratidão, nem, mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciência do que sou para ti, que é (medita bem) o mais que posso ser…
A história… não é assim ? Principia agora.
Antônio Alves era um pobre amanuense do escritório de um tabelião de Lisboa. O tabelião morreu, e Antônio Alves, privado dos escassos lucros de amanuense, lutou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao colo, e ele pelo outro com as lágrimas da indigência, conseguiram algumas moedas, e com elas a passagem do pobre marido para o Rio de Janeiro.
Foi, e deixou entregues à Providência a mulher e a filha.
Josefa esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um indício da sua existência. Julgou-se viúva, vestiu-se de preto e viveu de esmolas, pedidas à noite na praça do Rossio.
A filha chamava-se Laura, e crescera bela, não obstante as angústias da fome, que transformam a formosura do berço.
Aos quinze anos de Laura, já sua mãe não mendigava. A desonra proporcionara-lhe abundância que uma honrosa mendicidade lhe não dera. Laura era amante de um rico, que cumpria fielmente com a mãe as condicionais estipuladas na escritura de venda da filha.
Um ano depois, Laura explorava outra mina. Josefa não sofria com as vicissitudes da filha, e continuava a gozar os fins da vida à sombra de tão fecunda árvore.
A indigência e a sociedade fizeram-lhe compreender que só há desonra na fome e na nudez.
Outro ano depois, a radiosa Laura declarou-se o prémio do cavaleiro que mais airoso entrasse no torneio.
Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados, porque todos esgrimiam galhardamente.
Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de lança e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.
Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se ainda bela com vinte e cinco anos, e perguntou à sua consciência a baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciência respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para onde a chamava a lógica de sua vida, e continuaria a ser rainha num reino de segunda ordem, já que a exautoravam de um trono que tivera na primeira.
Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Aclamaram-na soberana, reuniu-se uma corte tumultuosa na antecâmara desta odalisca fácil, e não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do trono.
Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua legitimidade. Os cortesãos voltaram-se para o sol nascente, e apedrejaram, como os Incas, o astro que se escondia para alumiar os antípodas de um outro mundo.
Os antípodas de um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a inteligência da arte, sem o culto à formosura, sem as opulências que o ouro cria nas altas regiões da civilização, e, finalmente, sem algum dos atributos que Laura amara tanto nos mundos onde fora soberana duas vezes.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.