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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

O Italiano ergueu-se de salto e arremesso; eu saí da sala devagarzinho; e ele, enquanto a mim, tornou a sentar-se. Fez bem, que eu não era para graças.

Acabou assim a história das sete mulheres, número cabalístico, de cuja misteriosa influência me ficou a alma um pouco derrancada.

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA

I

A minha alma olhou para o que foi e viu que os sete amores que a tinham derrancado passageiramente eram ridículos e indignos de serem dados como explicação de um cinismo sobremaneira satânico em que eu me andava ensaiando.

Antes, porém, que eu tornasse em mim, estive seis meses a dizer ao mundo, em prosas chamadas Meditações e em versos denominados gritos de alma, que estava cético, e cínico, e que havia de engolfar no lodo em que me atascaram o coração as virgens louras com o seu amor ingênuo, e quantas virgens de diversas cores a minha libertinagem atraísse às aras de sedenta vingança. Aqui vão as cópias dos principais poemas que então fiz...

Nota

Defendo a paciência do leitor dos duros golpes que lhes estão iminentes. Ainda assim, há de levar-me a bem que eu lhe dê, à prova, uns relanços das poesias cépticas do meu amigo Silvestre. Entro pela mais filosófica:

Ontem me riu o céu; milhões de estrelas

Me falaram d’amor.

Ontem flores a mil, e todas elas

Me davam, dos seus dons, das urnas belas,

Aroma à alma em flor!

Hoje, aí!, hoje um céu de negro, e a terra

De crepe funeral!

Hoje um peito que em si peçonha encerra;

E a alma em fogo, que precita erra

Num regiro infernal.

As seguintes coisas são menos inocentes:

Mulher!, em ânsias me esforço,

Punge-me dentro o remorso

De te não calcar aos pés!

Tinha uma crença...mataste-a!

Tinha uma luz...apagaste-a!...

Mulher!, que monstro tu és!!

Esta quadra da poesia LXIX é mais raivosa

Hei de essa alma perversa estrinçar-te!

Hei de à fronte cuspir-te a peçonha

Que verteste em meu peito, e ferrete

Hei de pôr-to de eterna vergonha!

Basta isto para terror das almas e amostra da poesia contemporânea de Silvestre.

Nestas minhas confissões hei de ser modesto, e verdadeiro, como Santo Agostinho e J. J. Rousseau; mas, ainda assim mais honesto que o santo e que o filósofo. O pejo e a natural vaidade querem pôr-me mordaça; mas eu hei de expiar as minhas parvoíces, confessando-as. Se, por miséria minha, me baralhei e confundi com tantos e tão graúdos tolos, farei agora minha distinção pondo, em letra redonda, que ora, Não me consta que algum dos meus amigos fizesse outro tanto.

Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro calamistrar os longos anéis que me ondeavam nas espáduas; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulações, dava à fronte o máximo espaço e sacudia a cabeça para desmanchar as torcidas deletriadas da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada que o preciso para significar “desordem e génio”, comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.

(continua...)

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