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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O tio e tutor de Teodora, sabedor dos amorinhos, que as religiosas, contra o seu costume, tomaram entre dentes, impôs a sua jurisdição tutelar- A educanda reagiu sem proveito, e Afonso desafogou em lágrimas a sua saudade.

A velha fidalga de Ruivães, avisada pelo filho aflito, foi a Braga consolá-lo, e dalipartiu a casa do tutor, a lembrar-lhe o consórcio de Afonso e Teodora, desde muito pactuado entre ela e a sua defunta amiga. O tutor replicou, dando como nulos tais arranjos, enquanto os meninos não estivessem em idade de os ratificar.

Afonso esmorecera em dolorosa letargia, ao passo que Teodora pensava em fugir do convento. O instinto de associação, irrecusável em empresa tão arriscada, deu-lhe a conhecer a única pessoa capaz de auxiliá-la.

Estava nas Ursulinas uma menina de Trás-os-Montes, de família distinta e costumes também distintos em natureza depravada. Entrara ali como em prisão; não obstante, como o anjo das trevas nunca desampara as suas dilectas, lá mesmo lhe espiritou traças de poder entender-se com quer que foi que a viera seguindo desde a hora em que a família a desterrara. E que traças, infando sucesso, que revelação afrontadora da humanidade vai hoje estampar-se nesta página!

A menina transmontana, abrindo à flor dos lábios o sorriso condolente de um anjo de candura, selou com um beijo no rosto da sua recente amiga o pacto de se coadjuvarem contra a tirania de pais e tutores.

E posta, desde logo, em discussão a matéria, quis a morgadinha da Fervença, sem mais rodeios, saber de que modo poderia fugir do convento. Libana achou anojado o intento da fuga, e desesperado sem razão, quando se podia melhorar de sorte, sem correr o risco de ser presa e reposta no convento para nunca mais ver Sol nem Lua. Contou ela, para exemplificar o perigo da fuga, a desgraça acontecida naquele mesmo convento uns trinta anos antes. Era a longa história de uma senhora, reclusa ali por violência, que, cuidando salvar-se pelos encanamentos subterrâneos dos escoadouros do mosteiro, morrera asfixiada; e quando as freiras, a família e as justiças a julgavam foragida no estrangeiro, um operário ocupado da limpeza dos valos encontrou um cadáver quase esfacelado, mas ainda reconhecível pelos trajos. Semelhante história, contada e ouvida naquela casa sempre com horror, fez sorrir a morgadinha, e tirou-lhe do peito virginal esta observação: "Tendo eu de morrer na imundície dos canos, antes me deixaria morrer entre a imundície das freiras. Lá enquanto aos aromas enjoativos, tanto faz estar lá em baixo como cá em cima." A resposta foi mais estirada e espirituosa no seu género; mas assuntos desta grossura só podem tratá-los curiosamente engenhos claros e eminentes como o poeta dos Miseráveis, que poetiza os escoadouros de Paris com o mesmo acume de estilo com que falaria dos jardins perpetuamente olorosos do Elísio.

Resolvida a sobrestar no plano da fugida, Teodora travou-se de mui intima amizade com Libana, e formavam a sós um partido, que se fazia respeitar pela audácia da língua, e soberba de sua prosápia e abundância de meios. Neste conluio entrava uma servente de fora e uma criada de dentro, mediante as quais Afonso de Teive recebia cartas de Teodora, e um cavalheirote imberbe de Trás-os-Montes, primo de Libana, recebia as cartas de sua prima.

Numa tarde de Agosto saíram as duas meninas a tomarem a fresca na cerca. Com o jeito cismador e melancólico em que iam, diríeis que eram as duas graças a procurarem a terceira, que lhes fugira enamorada de alguma divindade incógnita. Quem as visse àquela hora, depurativa das fezes de maus pensamentos e más palavras, havia de cuidar que o seu diálogo, todo ferventes arrobos e cantares ao empíreo, versava sobre os céus de Santa Teresa de Jesus, ou semelhantes devaneios do espírito embevecido no foco luminoso dos bem-aventurados.

Agora se recostam elas num escabelo de cortiça, cujo espaldar lhe formam almofadas de fofas murtas, matizadas da flor do maracujá. Perto delas trepida uma fonte; no tanque, onde a Lua já principia a espelhar-se, coaxam as rãs; a viração cicia.nas ramas do pomar; zumbem os insectos, espanejando-se ao frescor da tardinha. As duas cândidas meninas, enleadas na poesia do quadro, realçam-no e completam-no.

Ouçamos a música daqueles serafins.

Dizia Teodora:

- Se me eu pilhasse fora daqui!... Nestas tardes tão bonitas, havia de ser tão bom andar eu a passear com o meu Afonso!.. - Queimado morra o meu tutor e mais o filho!

Se não fosse aquele bruto, não estava eu engradada! O Libana, tu não farás com que nos escapemos deste inferno! Olha... lá está a madre porteira a espreitar-nos da grade do canto!...

Libana voltou desabridamente as costas à madre porteira e acudiu nestes termos aos anelantes desejos da sua amiga:

(continua...)

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