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#Contos#Literatura Brasileira

Valério

Por Machado de Assis (1874)

Entregou-se Valério todo ao trabalho, e começou a cumprir à risca a promessa que fizera. Dois golpes acabaram, entretanto, por lhe abater completamente o ânimo. Um foi o incêndio na tipografia. Estava Valério em casa quando soube do desastre; eram dez horas da manhã. Seguiu para o lugar; achou a casa em ruínas. Os tipos ficaram todos fundidos; o dono do estabelecimento estava quase doido.

Abatido, desvairado, Valério deixou o lugar do sinistro e entrou a andar ao acaso. Na Rua do Cano viu de longe a menina Hélvia com o marido. Aproximou-se como se visse uma tábua de salvação. Aquela felicidade dos dois consortes era obra dele; na aflição em que estava, podia, sem afronta para si, receber o salário da obra. Não reparou que estava, comparativamente, um tanto maltrapilho.

Apressou o passo e ia articular uma palavra, quando os dois, olhando para ele, voltaram imperturbavelmente a esquina.

Valério, que cometera outras tolices na sua vida, coroou a obra indo atirar-se ao mar.

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