Por Machado de Assis (1872)
— Está tudo acabado, respondeu ele: romperam-se os vínculos fatais. Custou-me muito, mas era necessário; foi agora há pouco; corri para cá; precisava de alguém com quem desabafasse. Isto é ridículo, bem sei; mas que queres? Eu sofro... tenho um coração miserável, e deixo-me levar por ele...
Félix pareceu condoer-se da situação do rapaz, e disse-lhe algumas palavras de animação, que ele ouviu com reconhecimento.
— Eu já desconfiava, disse Meneses, de que era traído; só tive a certeza ontem. O que mais me dói em tudo isso, continuou ele depois de alguns instantes de silencio, é que, para servir ao homem que me traiu, desfazia-me eu em obséquios, e até, confesso te aqui, era seu credor.
— É por isso que eu não empresto dinheiro a ninguém, respondeu Félix, penteando as suíças.
— Mas quem pode adivinhar o mal, quando nos apresentam uma fisionomia risonha? Eu confiava em ambos.
Félix encolheu os ombros.
— Toma um charuto, disse.
— Não quero fumar.
— Fuma; eu já observei que o fumo impede as lágrimas, e ao mesmo tempo leva ao cérebro uma espécie de nevoeiro salutar.
— Vais sair? perguntou Meneses, vendo que o outro punha o chapéu na cabeça.
— Vou à casa do Viana. Queres vir?
— Não posso.
— Devias vir comigo; apresentava-te à irmã dele, e passávamos algumas horas em companhia amável. Esquecerias depressa as tuas penas.
Meneses recusou; Félix levou-o no carro até à Rua do Lavradio, onde ele morava. Em caminho conversaram dos seus extintos amores. Meneses jurava que era a última aventura a que expunha o seu coração; achava-se curado de uma vez. — Não afirmes nada, Meneses; podes errar. Sabes o que te falta? Têmpera. Amanhã, entre duas lágrimas, aparece-te um raio de sol, e eis-te de novo namorado, confiado e arriscado.
— Oh! não! protestou Meneses.
— Quem dera que não! Mas eu estou a ler no teu rosto que a única maneira de te consolar deste naufrágio é dar-te outro navio. Só muito tarde te convencerás de que viver não é obedecer às paixões, mas aborrecê-las ou sufocá-las. Os maricas, como tu, choram; os homens, esses ou não sentem ou abafam o que sentem. Isto não tem réplica, meu... amigo, diria eu, se me não lembrasse do teu afortunado rival, que é positivamente um mariola. Vem à casa do Viana; hás de gostar da Lívia; parece-se contigo.
— Não posso, respondeu Meneses, que só ouvira as últimas palabras de Félix.
— Mas hás de ir depois?
— Sim, depois.
— E se te apaixonas por ela?
Meneses sorriu tristemente; o carro parou; despediram-se um do Outro, e Félix seguiu para Catumbi.
Lívia estava só em casa. Fora convidada a um jantar, mas respondeu pretextando um incômodo que não tinha. O irmão encarregou-se de ir representá-la. — Tinha o pressentimento, disse ela depois de referir estas cousas ao doutor, tinha o pressentimento de que o senhor vinha cá hoje, e não desejava que lhe acontecesse a mesma cousa que da primeira vez.
— E acredita em pressentimentos? perguntou Félix.
— Não os explico, mas acredito neles.
Lívia parecia mais bela que das outras vezes. Não só a luz natural dizia melhor com a sua tez, como também a simplicidade do vestuário era para ela um realce. Félix não dissimulou a impressão que lhe causava aquele novo aspecto da moça. Lívia, que, como toda a mulher bela, e posto não fosse vaidosa, sabia mirar-se na fisionomia dos outros, não deixou de perceber a impressão do doutor.
A cena da portinhola do carro não havia saído do espírito de Félix que se convencera de duas cousas primeiro, que a viúva gostava dele; depois, que era fácil triunfar da viúva. As aparências davam fundamento à opinião de que a moça o amava. Félix aproveitou a situação e dispôs-se a tirar dela todo o proveito possível. Pouco se demorou, entretanto, naquele dia. Quando anunciou que se, ia embora, pediu-lhe a viúva que não esquecesse a casa.
— Aproveitarei o tempo, observou Félix, enquanto não embarcam para a Europa. Seu irmão diz-me que a viagem é breve.
— Se não houver transtorno. Em todo o caso, venha, e não faça visitas de médico.
— Eu fui médico; fiquei com esse costume, respondeu Félix sorrindo.
— Já não é médico?
— Do corpo, não.
— Mas da alma?
— Talvez. Deixei agora mesmo um doente da alma que eu desejaria apresentar-lhe, porque estes ares dão saúde, creio eu.
— De que sofre o seu doente?
Félix sorriu-se.
— Vítima de uma inconstância, moléstia vulgar. Está no período agudo. É um pobre rapaz inocente e singelo, que vai buscar as regras da vi da nos compêndios da imaginação. Maus livros, não lhe parece?
Lívia não respondeu; estava embebida a ouvi-lo.
— Meneses não conhece outros, continuou Félix. Parece filho daquele astrólogo antigo
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.