Por Machado de Assis (1872)
A moça tinha encontrado um sapato para o seu pé.
A conversa que estou mencionando dava-se a um canto da sala; as demais pessoas estavam entretidas em grupos distintos.
Augusta desejou que ali chegasse alguém, cuja presença interrompesse a conversação; mas ninguém apareceu.
— Que me responde? perguntou Daniel.
— Respondo, disse Augusta, que não posso aceitar o seu amor, nem o seu pedido.
— Por quê?
Augusta olhou para ele espantada com a pergunta; mas como visse o olhar do moço, sereno e fixo, respondeu sorrindo:
— Formalmente, porque o não amo.
— Isso não é razão muito forte...
— No entanto...
— O amor viria com o tempo; bastava que me tivesse alguma afeição. Não tem?
— Não tenho.
— Que é preciso fazer para vir a tê-la?
— Isso não sei, respondeu Augusta.
Daniel tirou o relógio do bolso e depois de consultá-lo, tornou a guardá-lo silenciosamente. Na indiferença do rapaz, havia um tanto de cálculo, mas um tanto de sincero. Apenas guardou o relógio:
— Pois eu acho, D. Augusta, disse ele, que dificilmente poderia encontrar marido mais conveniente do que eu.
— Tem boa opinião em si, disse a moça sorrindo.
— A melhor opinião deste mundo, acudiu Daniel. Convencido de que os outros homens hão de ter sempre a meu respeito uma péssima opinião, eu compenso esse juízo infundado, pensando a meu respeito as melhores coisas possíveis. Por exemplo, a sua observação quer dizer que me julga fátuo; eu penso justamente o contrário a meu respeito.
— É uma compensação, observou Augusta.
— Então confessa?...
— Confesso, que estou com muito calor, disse Augusta, levantando-se. Daniel mordeu os beiços; mas levantou-se e ofereceu-lhe o braço.
— Vamos para a janela?
Augusta aceitou sem repugnância, nem vontade.
— Com efeito, aqui faz menos calor, disse Daniel apenas chegara à janela. E a noite está bonita.
— Está bonita, repetiu Augusta; mas se lá está calor, aqui está frio.
— Não tanto, não tanto. Estou a ver uma coisa, D. Augusta.
— O que é?
— É que tudo lhe parece exagerado. Nem lá faz tanto calor, nem aqui tanto frio. Por que esta maneira de apreciar as coisas? Não lhe parece que isso há de levá-la muita vez a ser injusta?
— Quando assim seja, disse Augusta, eu creio que a primeira vítima da injustiça serei eu.
— Perdão! nem sempre assim acontece; e é justamente por isso que a justiça me parece uma bela coisa. Queira meditar bem nestas palavras, D. Augusta: não julgue nunca pelos olhos do seu capricho.
Daniel dizia todas estas palavras com uma graça tão respeitosa que desarmava a moça; e no entanto já tinha o direito de deixá-la à janela e voltar à sala.
Quando ele lhe falou nos olhos do capricho, Augusta olhou espantada para ele; depois, respondeu:
— Os olhos do meu capricho podem ser maus; em todo caso, porém, não usarei dos óculos do seu despeito.
A alusão era clara; Daniel não contava com esta carga de baioneta.
— O meu despeito? disse ele; já sei ao que alude. Eu poderia calar-me, mas acaso é digno de nós deixar sem resposta uma alusão tão graciosamente feita? D. Augusta, eu repito o que lhe disse; amo-a, quisera recebê-la em casamento; mas a sua recusa é para mim tão sagrada que eu nem quero discuti-la; e inspira-me o mesmo sentimento que inspiraria a Virgem Maria se eu lhe pedisse uma graça e ela ma negasse; resigno-me sem pensar mais nisto.
Foi uma felicidade que entrassem neste momento Valadares e a mulher. Augusta foi abraçar Amélia, enquanto Daniel adiantou-se para ir apertar a mão a Valadares.
XII
Protestos de resignação em amor são como sentenças escritas na areia; desfazem-se ao primeiro vento. Daniel, que era o tipo da indiferença, começava a sentir a dolorosa convicção de que lhe seria difícil viver sem aquela mulher. Quando chegou a casa, recordou todos os episódios da noite, repetiu entre si as palavras trocadas com Augusta, arrependeu-se das que proferira; por um instante, teve idéia de ir-lhe pedir perdão. O tiro da peça ainda o achou acordado.
Se durante esse tempo, Daniel pudesse estar no quarto de Augusta, veria a luz da vela confundir-se com os raios da manhã. A moça dormiu apenas duas horas e ainda o seu sono foi sobressaltado. Seriam as mesmas impressões? Eu poderia, no interesse do romance, deixar em claro este ponto; mas prefiro dizer francamente aos leitores os sentimentos dos meus personagens.
Augusta não velara pelo mesmo motivo que Daniel. Era despeito. A orgulhosa Augusta sentia-se envergonhada com a cena que se passara durante a noite. Humilhara-se com a fácil resignação de Daniel; era a sua primeira derrota.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.